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200 Artigos depois escrevendo sobre vinho: aprendi a escrever também sobre a vida

Cheguei aos 200 artigos e no decorrer deste percurso, o vinho transformou a forma como observo a vida, as pessoas, o tempo e a cultura. Este trajeto foi repleto de reinvenção, de coragem, de autenticidade, de maturidade, de construção intelectual, de feminilidade, de uma transformação pessoal, de aquisição de capital cultural e a formação de uma linguagem própria dentro do universo vínico, onde passei a comunicar a cultura vínica através da sua própria história milenar, com reflexões culturais e humanas.

Há uma ironia bonita escondida nesta história, o vinho entrou na minha vida primeiro como cultura, não como bebida de consumo alimentar. A mulher que hoje escreve sobre vinho com intimidade e paixão nasceu num lar onde a bebida alcoólica sequer entrava pela porta. Nascida num lar cristão, cresci sem nunca sentir o aroma em uma taça, sem nunca ver a cor do vinho refletida na luz de uma mesa de jantar. E foi exatamente assim que a vida começou a me ensinar a sua primeira lição, aquilo que nunca imaginamos tocar pode se tornar o centro do que nos tornamos.

O vinho não surgiu por hábito social, mas através das viagens e da aquisição de cultura. As viagens foram as portas para este encontro transformador. Cada região vitivinícola ao qual visitava eu descobria um novo mundo de informações, e voltava ainda mais curiosa, mais rica de perguntas, mais seduzida pela profundidade de uma cultura que existe há milênios e ainda hoje tenho tanto a dizer sobre ela. O vinho não entrou na minha vida como vício nem como uma moda. Entrou como aquisição de capital cultural valioso. E desde que aprendi a “falar essa língua“, não parei mais. Hoje vejo com clareza que fui atraída pelo significado do vinho antes mesmo do líquido em si.

Os pesados investimentos em incontáveis viagens não foram em vão, algumas destas até sendo para o mesmo país diversas vezes para visitar terroirs e produtores diferentes. Viajar me ensinou que algumas regiões vitivinícolas pelo mundo não produzem apenas vinho, produzem uma identidade peculiar impressa até no próprio DNA das pessoas que habitam o local. Percebi claramente onde havia a cultura do vinho real e onde esta se perdeu por disrupturas sociais e políticas. Visitei locais paradisíacos, cheios de magia e encantos, já outros sendo um dos mais perigosos do mundo de uma mulher estar.

Dos extremos terroirs chilenos ao sul na America do Sul aos surpreendentes vinhedos gelados canadenses da America do Norte. De cruzar os mais importantes países produtores de vinhos do mundo, mapeando um a um os seus terroirs, à visitar países europeus exóticos. Da região do Levante no Oriente Médio com áreas remotas de deserto impensáveis a produção de vinhas, à região do Cáucaso, considerado pela ciência até aqui como sendo o berço do vinho do mundo. São muitas memórias, muita aquisição de experiências in loco, incontáveis conversas com os mais diferentes profissionais dentro da cadeia do vinho, muita troca intercultural de uma Amazonas nascida em Manaus na Amazônia brasileira, com tantos lados do mundo.

O vinho participou em minha vida ativamente como um veículo de aquisição cultural, não só em visita as vinhas, aos produtores, aos grandes eventos, mas também no refinamento gastronômico, nos modos de vida, na herança cultural e nas incontáveis visitas a tantos museus pelo mundo, sendo que alguns casos, visitas com muitas horas de estudos através dos seus acervos históricos preservados e expostos. Cheguei em uma viagem a Londres ao qual passei um mês, em ir diariamente ao British Museum, estudando cada ala do museu e onde o vinho estava presente nas mais variadas civilizações. Com tudo isso não só absorvi tudo que pude sobre a cultura do vinho, eu claramente refinei o meu olhar sobre a cultura geral.

Por volta de 2016 algo ocorreu dentro de mim. Não foi uma crise, foi uma clareza. Havia sido retirado um véu da minha face e já não via sentido em como estava levando a minha vida, atuando como médica veterinária, profissão ao qual investir muitos recursos, muito tempo de estudo, de trabalho e ao qual sempre amei, mas algo que me conectava a altura com esta atividade, não ela em si, não ressoava em mim como sentido de propósito, havia uma outra versão de mim esperando do outro lado de uma decisão que eu ainda não tinha total coragem de tomar.

Estudei minuciosamente durante meses. Analisei negócios, mercados, possibilidades, conversei com diversas pessoas. E em 2017 a resposta chegou que seria o mundo dos vinhos. Na altura já era apaixonada pela bebida de Baco, mas só a via até então como hobby. Neste mesmo ano registrei no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), processo N. 913195715, a minha marca em meu nome e construí uma marca pessoal dentro do setor do zero, iniciei as burocracias de registro da abertura da empresa de importação junto com o meu marido na época, atualmente ex-marido e ex-sócio da empresa, e em 2018 as primeiras garrafas cruzaram o oceano e chegaram ao Brasil com destino a encantar não só os amazônidas, mas também alguns estados brasileiros.

Com este rápido relato sobre mudança, quero partilhar o que aprendi naquele período não foi sobre vinho, foi sobre identidade e dignidade. Trocar de profissão é “relativamente simples”. Trocar de identidade exige outra coisa, exige que você esteja disposta a não saber quem você é por um tempo. A ficar no meio, sem chão firme, nem em um lugar nem no outro. É a confiar em si própria, mesmo quando ainda não haja clareza e nem estabilidade. Aproveito para te dizer caro leitor, se você está num momento de transição enquanto lê este artigo, guarde isso, “a coragem não aparece antes da decisão, ela aparece porque você decide“.

Existe um “ritual tradicional entre profissionais” na degustação do vinho que o mundo moderno deveria observar. Você para, você olha, você sente aromas sem ainda julgar, só depois de tudo analisado, você deve descrever o vinho. Escrever sobre o vinho me obrigou a desenvolver musculatura de prova. Aprendi que uma nota, aroma ou nuance de um vinho tinto não é ao acaso, pode ser resultado de diversas situações diferentes como por exemplo a aplicação de técnicas de vinificação ou longos estágios em barrica ou em garrafa. Que a acidez de um vinho branco pode contar a história do clima daquele ano. Que a cor em taça de um vinho rosé pode ser subjetiva em revelar a idade, em alguns casos necessitando o complemento de avaliação do vinho através dos seus aromas e sabores, e a partir disso pode revelar que se trata de um vinho vinificado de maneira diferente.

Este exercício constante de observar antes de concluir mudou a forma como escrevo sim, mas também mudou a forma como ouço, como me relaciono, como os processos de experiências diversas nos fazem crescer. O vinho me deu paciência ” na maioria das coisas” , e a paciência que descobri com ele e com o autoconhecimento é o ingrediente mais raro em qualquer processo criativo. O vinho me ensinou que criação e profundidade, ainda importa num mundo tão superficial. Num mundo onde tudo é rápido, onde as pessoas desaprenderam a contemplar desde uma taça de vinho às pessoas por trás dele, e os conteúdos rasos dominam o mundo digital.

Ir contra a corrente apostando em curadoria com textos profundos, conversas longas com as pessoas que fazem parte da cadeia do vinho, partilhar cultura significativa através de videoaulas com contexto históricos e também convidar a reflexão e ao pensamento, é algo que assumi como propósito. Ajudando a elevar o grau cultural dos que amam este tema “o vinho”, saindo apenas da descrição do líquido em si e como se produz.

Há períodos da vida que muito há para dizer, mas preferi o silêncio. Mas ainda assim, escolhi usar o teclado para redigi palavras sobre vinho. Em 2022 minha vida pessoal passou por uma transformação profunda. Foi um fim de um longo capítulo em minha vida, que culminou em mudanças bruscas na minha vida pessoal e profissional, também mudei não só de país, mas de continente, tudo ao mesmo tempo.

O meu blog não parou por muito tempo. Os artigos continuaram sendo escritos. E foi nesse ato aparentemente simples de sentar e escrever sobre vinho que encontrei a maior âncora que o caos pode oferecer, a continuidade. A prova de que, mesmo quando tudo muda, você ainda é capaz de criar. Escrevi sobre vinho, sobre terroir, sobre regiões que visitei in loco. E de alguma forma, escrever sobre o universo do vinho foi escrever também sobre mim. Sobre o que resiste. Sobre o que se transforma. Sobre o que, com o tempo certo, se torna algo ainda melhor. Se você leitor tem um projeto criativo que está abandonado por medo de não estar bem o suficiente para tira-lo do sonho, te digo comece, mesmo que seja só uma linha, um documento, uma pequena ação. Descobri que fazer ajuda a curar, não esperar o nosso estado de espírito perfeito para poder começar.

O primeiro texto foi redigido com a energia de quem quer provar alguma coisa, já este 200 é escrito com a tranquilidade de quem já provou para si mesma do que é capaz, após percorrer 34 países e mais de duas centenas de terroirs vínicos pelo mundo. Em sete anos de publicações aprendi que consistência não é talento, é decisão repetida.

Desde 2019 houveram momentos que não quis escrever, mas escrevi. Inclusive houve artigo que achei mediano e o publiquei mesmo assim, porque o leitor é que decide o que é valioso para ele, não o meu perfeccionismo, mascarado no momento de “procrastinação”. E acredite que cada pessoa tira valor até de detalhes diferentes partilhados no mesmo texto, pois as percepções são muito individuais.

Algo importante que também aprendi é que a voz de um escritor não nasce pronta, é preciso treino, ela vai aparecendo nas entrelinhas, artigo após artigo, até que um alguém te envia um feedback dizendo “tens voz própria dentro do setor e da para reconhecer que é você só pela maneira de escrever” , e ai você entende que algo verdadeiro foi de fato construído.

No início da escrita para o Mundo de Baco em 2019, o blog era o meu único canal principal. Hoje estou presente em onze redes sociais diferentes, o Bacocast, podcast com conversas longas e densas com profissionais e apresentação de projetos dentro do setor é distribuído em sete plataformas de streaming de vídeos e de audios, o Baco Valley, recente canal colocado no ar no Youtube com videoaulas sobre cultura vínica está caminhando dando seus primeiros passos, e em 2024 publiquei meu primeiro livro Vinho Viagem Cultural, tudo isso, percorre e evidencia de forma consistente a construção de uma marca e presença digital alicerçada tijolo a tijolo, sem atalhos.

Dentro desse meu ecossistema cada canal tem uma função distinta e podem comunicar com públicos completamente diferentes, pois a maneira de consumir conteúdos varia de pessoa para pessoa. O Mundo de Baco é onde o pensamento se expande com profundidade através de textos. O BacoCast é onde a conversa acontece, onde vozes do setor se encontram e revelam o que os rótulos não contam. O Baco Valley é onde o aprendizado se torna visual, acessível, didático. São três canais principais e três linguagens diferentes para contar a mesma história: o vinho como cultura, como experiência e como vida. O que não mudou em nenhum deles é o meu propósito, divulgar a cultura vínica pelo mundo. Esta distinção simples, acredito, que manteve uma audiência fiel e crescente ao longo de todos esses anos. Afinal crescer não é trair a origem, mas honrá-la com muito mais alcance.

O vinho amadurece. Se transforma com o tempo em algo que não poderia ser sem os anos que passou. Tem safras difíceis que surpreendem, e safras promissoras que decepcionam. Tem o terroir e os franceses usam até a expressão mais precisa “climat” , essa mistura única de solo, clima, exposição do vinhedo, cepas e mão humana que não se repete em nenhum outro lugar do mundo. Cada um de nós seres humanos também temos o nosso próprio “terroir”. Uma combinação irrepetível de onde viemos, do que vivemos, de quem nos tornamos e do que escolhemos fazer com tudo isso.

Duzentos artigos depois, o que posso dizer com certeza é que escrever sobre vinho foi, o tempo todo, uma forma de entender a vida. De entender que as melhores coisas pedem tempo. Que resistir ao processo não acelera o resultado. Que há beleza real nas transições, nas mudanças de ciclos, mesmo quando são bruscas e extremamente dolorosas, e até quando assustam e onde perdemos o chão. O ciclo da videira tem diversas fases, e cada novo ciclo carrega um novo recomeço de uma nova oportunidade de produzir vinhos excepcionais. Ao longo da nossa vida também podemos passar por diversos ciclos e em cada um deles guardamos aprendizados do que já vivemos e do que já amadurecemos.

Após essas duas centenas de textos publicados, percebo que nunca escrevi apenas sobre vinho. Escrevi sobre pessoas, tempo, transformação, cultura e sobre a forma como aprendemos a sentir o mundo com mais presença a partir da bebida milenar e sagrada, o vinho. Um novo ciclo começa a tomar forma e como toda boa safra, ainda está maturando detalhes importantes. Agradeço a sua companhia neste trajeto até aqui, que se torna um marco importante para mim e por isso o registro especial.

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Saudações Báquicas, Boas Provas e Saúde!

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Fonte:

Mundo de Baco por Dayane Casal