Muitos dos pilares econômicos de indústrias tradicionalistas pelo mundo com séculos de história não desapareceram diante das mudanças do consumidor do século XXI. Alguns setores comparados a outros, tiveram a visão das mudanças necessárias, capacidade de adaptação, reposicionamento e em alguns casos se reinventaram quase que completamente. Setores como os da moda e da arte são exemplos disto, e mesmo sendo setores complexos e ecléticos tiveram diversos detalhes importantes de mudanças que vale a pena comentar. Neste artigo partilharei algumas destas metamorfoses com o intuito de gerar reflexões ao setor dos vinhos, afinal estas três cadeias econômicas carregam em seus DNAs “valor simbólico” e não vendem apenas um produto, mas sim significado, pertencimento e narrativas histórico-culturais.

1. Setor da Moda
Quando estudamos a história da moda percebemos com nitidez a constante evolução ao qual este setor passou iniciando desde os seus primórdios na pré-história, onde as vestimentas rudimentares eram uma necessidade de proteção básica e com o passar do tempo evoluíram para uma complexa forma de expressão cultural e identidade social, o que conhecemos também por “status social”. Este setor transitou ao longo dos séculos entre cortes, tecidos, adereços, cores e ocasiões, adaptando-se ou ditando ele próprio, as novas tendências.
Algumas das reinvenções que o setor da moda passou foram por meio da busca de narrativas e conexões de valores. As bandeiras da sustentabilidade “slow fashion”, mais transparência produtiva, preocupação com a economia circular e a digitalização do setor também foram impactos destas transformações.
Maisons como por exemplo Gucci e Louis Vuitton perceberam que tradição sozinha não sustenta relevância e a vitalidade da empresa. A peça deixou de ser o centro, o discurso da marca passou a ser identidade, causas, estética e até em alguns casos posicionamento político ” tema sensível ” para qualquer negócio, afinal os políticos são trocados igual a fraudas e as empresas não, tem que sobreviver a eles e além deles. Ciclos alternados equilibrando o efêmero “novas coleções constantes”, mas com a preservação do atemporal “os clássicos”, a herança histórica da marca. Os badalados desfiles tornaram-se espetáculos culturais, lojas tornaram-se espaços imersivos, o cliente tornou-se participante. Em pleno século XXI com a descentralização dos veículos de comunicação criou-se a digitalização do desejo através dos mais variados ambientes digitais, como sites bem construídos e atualizados juntamente com as redes sociais oficiais da marca, o uso de influenciadores chaves e importantes ao seu nicho e a categoria do produto, tudo isso junto fazendo com que a marca deixe de vender roupas para verdadeiramente orquestrar desejo cultural em tempo real.
Partilho um outro case interessante que é sobre a marca ” Hermès ” que na verdade não é a de uma marca que mudou de rumo com o passar dos tempos, mas sim de um nome que expandiu o seu propósito original até transformá-lo em linguagem indissociável de luxo contemporâneo. Ela nasceu em 1837 em Paris produzindo arreios, selas e acessórios para cavalos, destinados a atender à elite europeia. Importante ressaltar que naquela época o luxo estava ligado a excelência artesanal, a durabilidade e a precisão técnica do produto, profundamente ligado ao gesto e labor manual dos artesãos com qualificação. A primeira metamorfose que a marca teve que fazer foi no início do século XX com a ascensão dos automóveis, tendo que tomar uma decisão entre desaparecer ou traduzir o seu saber para outro contexto. O couro antes utilizado para os arreios e selas, passa a ser usado na confecção de malas e bolsas, trocam-se os objetos finais da marca, mas a expertise qualificada dos artesãos permanece. As bolsas mais icônicas e valorizadas na atualidade da marca como ” Birkin e a Kelly ” são exemplos e herdeiras deste período de transição, significando que não houve uma ruptura, mas sim um leitura rápida de transposição de linguagem. No decorrer do tempo a marca ampliou seu universo produzindo sofisticados lenços de seda com estampas que remetem a história da marca com carruagem e cavalos, vestuários, perfumes e os mais diferentes acessórios que atendem a necessidade da era contemporânea. Importante ressaltar que mesmo transpondo de universo, a marca nunca perdeu a sua essência mantendo a produção artesanal, preservando a escassez e dificuldade de acesso aos seus produtos. A Hermès vende tempo de trabalho manual, raridade com o controle de oferta, identidade cultural com elegância discreta e pertencimento silencioso com o luxo que não precisa gritar.
Insight da metamorfose da Hermès foi que ela nunca abandonou a sua essência inicial, o domínio do artesanato de couro. Ela reinterpretou a sua essência em diferentes momentos históricos passando do cavalo ao corpo humano, do objeto funcional ao símbolo de status social, do produto à experiência cultural dos artigos de luxo. Ela não mudou o que fazia, ela ampliou o significado do que sempre fez, passando de fabricante de arreios à produção de desejos.
2.Setor da Arte
Desde as artes rupestres o ser humano fazia registros de hábitos culturais. Durante o curso da história observa-se como a humanidade foi mudando a forma de ver, interpretar e atribuir valor ao mundo através da arte. As artes nunca foram estáticas, sempre acompanharam as transformações culturais, tecnológicas e filosóficas. Nos povos antigos como Egito, Grécia e Roma a arte tinha função claramente religiosa, política e simbólica. A beleza estava nitidamente ligada à ordem, proporção e a idealização. Frescos da Capela Sistina e obras como David evidenciam a busca da perfeição e a transcendência, uma ponte entre o humano e o divino.
A partir do Renascimento até o século XIX o olhar do ser humano é transferido do divino para o próprio ser humano, deslocando-se o foco artístico da fé para a razão e a observação. Artistas como Leonardo Da Vinci e Caravaggio exploraram perspectivas, luz e sombra e emoção. Já Claude Monet mais tarde com o Impressionismo rompe com os movimentos de rigidez acadêmica até então, fazendo com que a arte deixe de ser apenas ideal e passe a ser percepção.
No século XX ocorre um ponto considerado de virada radical , os movimentos como Cubismo com Pablo Picasso, o Surrealismo com Salvador Dalí e Dadaísmo rompem com a ideia de que a arte precisa representar algo fielmente e inevitavelmente surge a pergunta ” o que é a arte, afinal ? ” .
No fim do século XX e início do XXI a arte contemporânea quebra fronteiras entre disciplinas “arte, tecnologia e design” , entre artistas e público e entre os objetos físicos e digitais. Artistas como britânico Banksy e brasileiro Kobra levam a arte para a rua . Instituições como Sotheby’s passam a negociar além de obras físicas, as obras de artes digitais. Com a criação dos NFT’s e a blockchain, surge uma nova camada de propriedade digital, escassez virtual e novos modelos de valor. Em pleno século XXI a arte também se torna além de experiência, provocação e sistema tecnológico.
Uma rápida síntese é que a arte antes era a representação do mundo, depois tornou-se a interpretação do mundo e agora é o próprio questionamento do mundo. Com o movimento atual concentrado na hiperprodução de imagens, consumo rápido e atenção fragmentada, vive-se paradoxalmente um movimento que busca autenticidade, experiência e profundidade, por isso vemos a valorização do artesanal, retorno ao que é físico e da natureza, e o interesse por boas narrativas e contextos.
3.Setor do Vinho
O milenar setor do vinho em pleno século XXI também vive um fluxo de enormes transformações em toda a sua cadeia de valor, e este é um setor bastante complexo e repleto de camadas que dependendo do ângulo que se observe e analise, podemos ter pontos de vistas diferentes. Portanto, meu comentário será generalizado, cabendo a cada parte da cadeia tirar mais valia de alguma informação e/ou insight.
Atualmente há um forte movimento pelo consumo consciente e cuidados com a saúde, consumindo menos volumes de bebidas alcoólicas, mas melhorando a qualidade do que se ingere, e observa-se um incremento de consumo de vinhos qualitativos. Com relação ao apelo da saúde, parece que o setor não se organizou até o momento de forma harmônica para comunicar de forma eficiente e estratégica nos meios de comunicação digitais ao qual os jovens e grande parte do mundo estão conectados os benefícios do vinho a saúde, e as milhares de pesquisas que apontam diversos indícios e evidências benéficas do consumo moderado e frequente para saúde humana. E vale relembrar e até relato isso no meu livro sobre que esta informação, mesmo sem evidência científica na época, já estava registrado no primeiro achado de escrita humana, há 4000 anos nas tabuletas de argilas, com escrita cuneiforme com as epopéias do rei Gilgamesh, que o vinho representava ” porção de longa vida e capaz até de magia” . Também outro detalhe que cabe ao setor como um todo é dissociarem o vinho das demais bebidas alcoólicas, isto é super importante. O vinho é uma bebida que carrega diversas moléculas nutracêuticas como as antocianidinas e o resveratrol, diferente completamente de outras bebidas que de fato só contem álcool.
Redigi um outro artigo falando sobre o novo momento do enoturismo “Wine Farm Hospitality ” e nele abordo como o consumidor tem buscado viver experiências que o conecte as narrativas e ao próprio terroir. Produzir Vitis e vinho com riqueza de storytelling que transmitam verdade é essencial para o setor dos vinhos na atualidade. Cada vez mais, as experiências tem sido valorizadas e os que as vivem se tornam embaixadores da marca.
Novos mecanismos de digitalização desde a produção das Vitis nos vinhedos à vinificação nas adegas, o uso de tecnologias de precisão são fundamentais na atualidade para manter a competição e sobretudo a precisão, sobretudo quando as produção já representam um volume. Os mecanismos digitais ultrapassam a produção e são vitais na comunicação e venda dos vinhos. Os produtores devem manter seus sites e redes digitais bem construídos e atualizados, e através deles se tornando vitrines e conexões dos consumidores com as suas marcas.
As novas gerações e também os novos consumidores de vinhos, também tem buscado outras maneiras de consumo, com outras roupagens não só da embalagem, do estilo do vinho, mas como ele de fato pode ser apresentado e experenciado a estes consumidores gerando desejo e valor. Esta interpretação de novos hábitos, novas linguagens e novas formas culturais geracionais ao que parece é o que o setor ainda não conseguiu decifrar, tendo poucos casos como exceção.
4.Reflexões Finais
Algo interessante de ressaltar sobre esses três setores “Moda, Arte e Vinho” não é apenas de serem tradicionais e seculares, com laços ligados a histórias muito antigas, mas por terem tido a necessidade de responderem: a evolução e a chegada do século XXI com mudanças significativas na forma com que o consumidor ver qualquer item; alinhar os valores como propósito, sustentabilidade e autenticidade; utilizar tecnologias não só na digitalização na produção, mas na captação de dados mais confiáveis e na utilização de plataformas digitais variadas para dar a conhecer seus produtos e também comercializa-los; e o mais importante de todos, entender o novo comportamento do consumidor do século XXI, que busca menos volume, mas mais significado, mais experiência e assim valoriza produtos que conversam nestas vertentes de análises.
Este foi um rápido resumo de algumas informações dos setores da Moda e da Arte e como eles tem transitado no decorrer dos tempos, ultrapassando os momentos mais turbulentos da história. O setor do vinho é um setor que sempre teve um peso socioeconômico e cultural muito significativo em suas regiões produtoras e por vezes é preciso “sair da ilha” para se ver o que pode-se melhorar nela, por isso conhecer a realidade de outros setores econômicos é tão importante para vermos como podemos contribuir na vitalidade e vida do vinho neste momento tão difícil. Para mim é sempre difícil dissociar o olhar apaixonado pelo setor do olhar técnico de gestão estratégica de negócios, andam sempre em sinergia e por vezes vemos além do óbvio e do que técnicos que produzem belos vinhos e políticos teimam em continuar a fazer. Há de fato a necessidade de destrinchar todas as problemáticas e criar ações em cada parte da cadeia, tudo em sinergia, e isso parece ser o óbvio, mas por incrível que pareça, o óbvio precisa ser dito e repetido várias vezes. Tenho pena de que o ser humano por vezes se apequena e só consegue ver os seus próprios interesses e por isso não se ajudam mutuamente para resolverem as questões onde no “frigir dos ovos”, todos estão e irão sofrer.
Desejo que este texto assim como todos os que tenho redigido possam de alguma forma contribuir com a abertura de pensamentos e reflexões dentro do setor dos vinhos, sensibilizando a todos que produzem, que comercializam e que consomem esta bebida milenar e sagrada possam ser tocados e que ajudem a leva-la a pelo menos mais oito mil anos de história.
Saudações báquicas e saúde!
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