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O vinho que nasceu no terroir de Lula na zona do agreste de Pernambuco

Localizada entre a Zona da Mata e o Agreste, a 200 km do marco Zero do Recife, Garanhuns ficou conhecida nacionalmente como a terra natal de Lula. O presidente viveu na zona rural da cidade até os 5 anos de idade, quando migrou para São Paulo com sua família. Quase oito décadas depois, um investimento pretende fazer com que o município se transforme em referência no país também pela produção de vinhos de altitude em pleno Nordeste. No planalto da Borborema, a 900 metros, o pasto foi coberto por videiras e de lá são extraídos tintos e brancos premiados em avaliações de especialistas, que vêm se surpreendendo com as características do “terroir de Lula”.  Empresa responsável pela façanha, a vinícola Vale das Colinas virou motivo de orgulho local. Há um ano, tornou-se patrimônio cultural e imaterial de Garanhuns.

A história começa em 2013, quando o casal de oftalmologistas Michel Moreira Leite e Micheline Cavalcante Silva compram um terreno na zona rural de Garanhuns e, junto com o sonho, um curso de vinhos, daqueles oferecidos em restaurantes. Antes de plantar, testam viabilidade e solo com apoio de Embrapa e Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE). Em agosto de 2017 chegaram as mudas de Cabernet Sauvignon, Malbec e Muscat Petit Grain — e, em 2020, no auge da pandemia, colhem a primeira safra. Hoje, toda a vinificação acontece na propriedade, que tem produção anual de 29 000 garrafas, vindas de 14 hectares. Quando a propriedade era um pasto, empregava um funcionário. Agora, a Vale das Colinas tem mais de quatro dezenas de funcionários no campo e passou a movimentar o turismo e a autoestima regional. “Quando levamos os primeiros trabalhadores para vinificação na Embrapa, muitos nunca tinham visto uma videira, hoje eles falam até de coisas técnicas, como a fermentação. Aqui empregamos todos com carteira assinada, não há mais diaristas ou meeiros (trabalhadores rurais que dividem a colheita com o dono da terra), aqui são todos funcionários com seus direitos respeitados”, contou Michel à coluna AL VINO.

O segredo do lugar está no microclima de montanha tropical. A amplitude térmica na colheita pode superar 20°C, somando dias luminosos e noites frias que preservam acidez, lapidam aromas e dão precisão ao cacho. Sem recorrer à poda invertida, a safra acontece em janeiro, com colheita de madrugada, das 4h às 9h, para manter uvas frescas e inteiras. É um manual de delicadeza aplicado ao semiárido de altitude.

Os resultados já trouxeram algumas medalhas de concursos nacionais e internacionais para os rótulos que homenageiam as filhas do casal fundador e a natureza ao redor. Apesar dessas conquistas, a vinícola que iniciou as atividades há pouco mais de uma década ainda não permite que os proprietários deixem a medicina. “Nossos custos são muito altos porque estamos fora do eixo, onde estão boa parte das vinícolas brasileiras. Minhas garrafas vêm do Chile e quando compro um tanque de aço-inox pago outro em frete e impostos”, disse Michel. Outro desafio é fazer com que a região consuma os próprios vinhos. “Muitos restaurantes, queijarias e charcutarias surgiram depois da vinícola, no entanto meus vinhos não estão em nenhuma carta da cidade”, lamentou o empresário. “Esse acredito que seja meu maior desafio.”

Cinco garrafas de vinho em uma mesa de madeira, com fundo verde e luz solar. Da esquerda para a direita: vinho rosé, vinho branco, vinho tinto, vinho verde e vinho tinto. Uvas e queijo complementam a cena
A linha de produtos da vinícola de GaranhunsDivulgação/VEJA
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O enoturismo tem sido a forma de apresentar os produtos ao público. A visita guiada com prova de três vinhos ao valor R$ 70 é uma das mais procuradas, mas há piqueniques, casamentos, sessões de fotos e muitos eventos. Enquanto Recife fervilha com frevo no carnaval, Garanhuns tem um festival de jazz. O sunset com musica instrumental é uma das atrações mais disputadas da cidade. O “Natal Encantado” e a corrida Vale das Colinas, que segundo Michel leva atletas do Sudeste para a cidade natal do presidente, também são datas fortes para a vinícola atrair visitantes. “Nós também temos a festa da pisa da uva, com colheita noturna e jantar harmonizado. Estamos enterrando vinhos, submergindo outro lote na bacia do Mundaú e vamos deixar outra parte em uma adega para fazer um evento que vai testar qual deles envelhece melhor”, contou.

Já foram enviadas cestas com produtos da região e os vinhos da vinícola para o filho mais famoso da cidade, o presidente Lula. “Nunca soube se ele recebeu, imagino que saiba de nós. Enviamos também para Jair Bolsonaro e Michelle, que postaram que receberam os vinhos nas redes sociais”, disse Michel. “Independentemente de partidos ou preferências, aqui nós precisamos de apoio”.

Em agosto está previsto o lançamento do primeiro espumante, feito pelo método tradicional com 12 meses de autólise (contato com as borras). Hoje, as vendas dos vinhos são realizadas na própria vinícola e na loja Bebidas de Pernambuco, em frente ao Marco Zero do Recife. O e-commerce que irá enviar os produtos para todo Brasil ficará pronto em junho. Os vinhos mais jovens custam R$ 95. Os gran reserva que envelhecem em barricas de, no máximo, segundo uso, saem por R$ 165. O vinho licoroso de colheita tardia, por sua vez, tem preço de R$135.

No fundo, a Vale das Colinas prova um ponto que o vinho vive repetindo mundo afora: quando lugar, gente e método se encontram, o mapa se redesenha. No alto da Borborema, um Nordeste de noites frias possibilitou a Garanhuns erguer um brinde ao agreste que, assim, ganhou mais um motivo para festejar.

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Fonte:

Vinho – VEJA