Os vinhos fortificados ocupam um lugar singular na história. São vinhos onde as suas narrativas, histórias, técnicas e identidade de territórios se entrelaçam com raridade e profundidade. Esses néctares não são apenas expressões enológicas, são verdadeiramente códigos históricos socioculturais que atravessam séculos e fronteiras. E nesta visão a ProDouro (Associação dos Viticultores Profissionais do Douro) liderou e promoveu o encontro histórico na região demarcada do Douro. Tendo como objetivo promover um debate internacional destes vinhos com o foco em gerar consciência coletiva sobre o valor, o legado histórico e o futuro dos grandes vinhos fortificados do mundo.

Na cidade de Peso da Régua, onde a paisagem é esplendorosa, repleta de memórias com evidência explícita da construção e legado humano no coração do Douro vinhateiro, ocorreu o palco do incrível dia do Colóquio Internacional dos Grandes Fortificados do Mundo, Porto, Jerez e Madeira. Este encontro foi marcado como um espaço de pensamento, partilhas e projeção, onde tradição o e futuro deixam de ser opostos e passam a dialogar com profundidade técnica e com propósito de ajuda mútua num mercado marcado pela acirrada competição. Neste artigo partilharei relatos de alguns dos momentos altos do evento, juntamente com algumas reflexões.
Três Vinhos Históricos
Algo em comum nestes três vinhos especiais é que a época dos Descobrimentos marcou o incremento das suas jornadas pelo mundo, passando a circularem nas caravelas em busca de novas terras e envoltos as rotas comerciais, os ingleses também tiveram um papel econômico importante, juntamente com os americanos no caso do vinho Madeira.

O vinho do Porto é sem dúvida o que marca o maior volume de produção, de áreas de vinhas plantadas e de maior quantidade de vitivinicultores envolvidos. O vinho inconfundível Jerez nasceu muito antes do período das Grandes Navegações, remontando à época dos antigos povos fenícios, que circulavam em toda a costa do Mediterrâneo. Já a produção de Vitis vinífera na ilha da Madeira nasce em 1419 com a leva de cepas da região do Minho pelos primeiros colonos na ilha, e há documentos que comprovam que 25 anos depois, já haviam vinhos sendo comercializados deste território português.

São inúmeras as curiosidades ao qual esses grandes vinhos marcaram o curso da história e fica um alerta, que é sempre importante reforça-las na lembrança dos que trabalham na cadeia do vinho e para o mercado consumidor, para que todos consigam entender o enorme peso histórico-cultural destes fantásticos néctares.




Personalidades Participantes e Pontos Abordados
O evento foi marcado por debates, exposições, análises e reflexões sobre os vinhos por diversas personalidades do setor.

Na abertura o Presidente da Câmara Municipal de Peso da Régua, José Manuel Gonçalves, salientou a importância histórica, do território de montanha, no peso sociocultural e de formar e capacitar as próprias pessoas do território, partilhando a frase “vamos pensar o futuro juntos”.
O Presidente da ProDouro Eng. Rui Soares, ressaltou o enquadramento simbólico histórico do momento atual, a valorização do patrimônio histórico, econômico, cultural, social e humano. Relembrou os 270 anos da Demarcação, também enfocou os 10 anos de defesa e visibilidade da ProDouro, ressaltando todas as atividades desta Associação e da sua importância para a região, que é marcada com aproximadamente 90% da economia nas atividades agrícolas, majoritariamente o cultivo da vinha e a produção do vinho.


O Presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, I.P. (IVDP), Gilberto Igrejas, se fez presente durante todo o dia, e em sua explanação fez observações importantes como a importância do vinho do Porto para a economia da região do Douro e do país, para imagem externa de Portugal e para figuração do patrimônio vínico singular. Contextualizou o desafio do cenário global instável, as alterações de consumo sobretudo em alguns estilos de vinhos, a necessidade de valorização do vinho do Porto ao seu ver, requer respostas do setor de forma mais conscientes, mais coordenadas e mais estratégicas.
A wine educator Sara Matos abordou a sua experiência e visão sobre os vinhos fortificados, fez um breve resumo dos principais pontos que unem e que distinguem os vinhos fortificados do Porto, Jerez e Madeira, fazendo diversas observações curiosas sobre as diferenças de áreas plantadas, de encepamentos , de solos, de climas e de produção.


Representando o vinho Jerez fez-se presente Cesar Saldaña, Presidente do Consejo Regulador de Jerez que explanou sobre o legado histórico e desafios do futuro deste vinho tão diferenciador, reforçando que a própria região consome muito do vinho produzido nela, mas é necessário efetuar a junção de preservar o legado histórico com o olhar nas novas gerações.
Em seguimento a mesma abordagem de análise Ricardo Diogo dos vinhos Barbeito representou o vinho Madeira, fazendo um belo enquadramento histórico-social deste vinho único do mundo. Expôs uma problemática que vivem na ilha que é a diminuição das áreas plantadas ocasionada pela pressão dos investimentos imobiliários diversos que vem ocorrendo nos últimos anos, o que causa uma problemática diferente dos outros dois vinhos presentes, que é a falta de uva.


Já a análise do vinho do Porto foi realizada por David Guimaraens da The Fladgate Partnership, que compartilhou diversos infográficos curiosos, importantes e até alarmantes sobre o que vem ocorrendo na região do Douro e na produção do vinho do Porto. Uma partilha interessante foi que diversos vinhos tem dimunuído as suas vendas, mas algumas categorias especiais como a dos Tawnys tiveram um incremento importante de valorização e vendas, evidenciando mais uma vez a leitura do mercado que o consumidor tem bebido menos volume, em detrimento a degustar vinhos de experiências únicas em mesa.
Antes de iniciar as seções de debates do dia, houve a participação de João Gonçalves, Presidente Comunidade Intermunicipal do Douro (CIM), uma associação de municípios da região norte de Portugal, que tem como objetivo promover o desenvolvimento regional, turismo, coesão territorial e gestão de fundos comunitários, onde explanou sobre a valorização do território vinhateiro, e finalizou discursando que “o Douro não é apenas uma região que produz vinho, é o território que deu ao vinho uma das suas expressões mais altas e através dele deu ao mundo uma imagem de Portugal” .

Debate Sobre os Vinhos Fortificados, o Mercado e o Futuro
Dando continuidade as atividades propostas pela ProDouro, a wine educator Sara Matos mediou um rico debate entre os representantes dos três grandes vinhos fortificados presentes. Para a análise do vinho do Porto destaque para David Guimaraens (The Fladgate Partnership), Tiago Alves de Sousa (Alves de Sousa), Gilberto Igrejas ( Presidente do IVDP). Para as considerações do vinho Madeira o Ricardo Diogo (Vinhos Barbeito) e as ponderações sobre o vinho Jerez, Cesar Saldaña (Presidente do Consejo Regulador de Jerez) e Manuel Torres Zarzana, uma voz experiente no universo do vinho Jerez.

O dia foi marcado por amenidades com um belo almoço temático de petiscos e tapas harmonizados com o vinho do Porto, Jerez e Madeira no restaurante ” Adega Escondidinho” em Peso da Régua, uma fantástica oportunidade de perceber a enorme versatilidade de harmonizações que esses vinhos apresentam-se em mesa. Também uma belíssima prova dos vinhos fortificados e lanche no fim de tarde após o encerramento das atividades propostas ao público.











Para finalizar o evento especial houve uma explanação de Paulo Russell-Pinto (IVDP) sobre diversos pontos importantes na harmonização com fortificados, onde dividiu os seus conhecimentos nesta matéria tão especial que envolve o mundo dos vinhos.
Reflexões Finais
O cartaz de divulgação do evento Colóquio Internacional dos Grandes Fortificados do Mundo, Porto, Jerez e Madeira, estava cheio de simbolismos nas imagens, onde havia uma imagem representativa das novas gerações com um óculos de realidade aumentada, ao lado de uma garrafa com diversas palavras que congregavam com o tema exposto e dando destaque para os nomes dos três vinhos do evento. Esta imagem em especial já diz muito e cabe aqui deixar um ponto especial de reflexão sobre ela.

Em meu último artigo publicado com o título ” Que Geração Está Consumindo Vinho ? ” , exponho a realidade da distribuição populacional no globo, por continentes e as características dos seus hábitos de consumo e correlações com o vinho. Dentre diversos pontos abordados conclui-se que o mundo atual é majoritariamente jovem, com a geração Z e geração Alpha com a dominância global. Já não é algo para o futuro, a realidade é agora e portanto penso que o setor dos vinhos e o segmento do estilo discutido no evento “os fortificados”, ao qual apresentam mais necessidades de explicação ao consumidor devido maiores pontos de detalhes nas suas vinificações, já estão em descompasso deste cenário de mudança cultural. É preciso agir de forma rápida, coesa e eficiente para as mudanças necessárias, vislumbrando a complexidade gigantesca da cadeia do vinho. Um evento como este promovido pela ProDouro é muito válido por trazer luz não só as problemáticas de cada região e estilo de vinhos, mas sobretudo buscar congregar soluções e ideias para ações eficazes para o setor como um todo.
Dentre tantos prismas e pontos de abordagens dentro da cadeia do vinho, de cada região e de cada estilo de vinho, há de se definir estratégias para: solucionar de forma mais rápida e menos politizada “engessadas” os problemas estruturais das regiões, que são diferentes dificuldades em cada região; reformular a forma de comunicar o vinho que seduza não só as novas gerações “dos jovens”, mas também aos ‘novos consumidores” de vinhos de diversas idades em novos mercados, trazendo mais facilidade e descomplicando o entendimento; novas formas de apresentar e experienciar o vinho também são importantes e vitais neste cenário. Afinal ao que parece, os jovens não estão rejeitando o vinho, estão o degustando de forma mais moderada e buscando qualidade e autenticidade.
Um outro ponto importante é fomentar o conhecimento da história do vinho seja nas escolas de formações nacionais e internacionais de escanções e de vinhos, e nos mais diferentes pontos de atividades da cadeia, todos do setor deveriam conhecer tudo sobre isso. Por incrível que pareça até nas escolas mais afamadas e referenciadas do mundo, não há disciplina ou módulo específico sobre este tema, deixando um enorme “gap” na formação destes profissionais que deveriam saber em minúcias cada detalhe. Quando se faz entender a jornada do vinho com oito mil anos de história, ganhamos de forma emblemática verdadeiros embaixadores desta cultura milenar, pois quando não se conhece a história e a cultura do vinho, não o valorizam e não o compreendem, e portanto ele se torna apenas mais uma bebida alcoólica que entra junto das “bandeiras e headlines” espalhadas pelo mundo na atualidade com o discurso “anti-álcool”, e travestidas de cuidados com a saúde. E é sempre vital lembrar e relembrar que o consumo moderado e constante de vinho, assim como todos os outros alimentos nutracêuticos, contribuem com a saúde humana, junto de uma vida equilibrada com menos estresse, práticas de atividades físicas e adequadas horas de sono.
Finalizo agradecendo ao convite especial realizado pela ProDouro nas figuras do Presidente Eng. Rui Soares e da Ana Aguilar, e pela oportunidade de participar deste evento e ser uma ouvinte atenta a tudo que foi exposto, parabéns pela forma que conduziram a programação ao longo de todo o dia e pela importante iniciativa. Desejo um grande bem-haja pelos 10 anos de ProDouro, aos 270 anos de Demarcação e aos 3 Grandes Vinhos Fortificados da história, Porto, Jerez e Madeira.
Que as suas histórias possam ser vivenciadas e contadas em pelo menos mais oito mil anos !
Saudações Báquicas e Saúde!
Abaixo alguns outros artigos que já redigi sobre esses três grandes fortificados do mundo
-
Cursos

“FALANDO EM VINHOS…..”
R$ 39,90 ou em 10x de R$ 3,99[seja o primeiro a comentar]Comprar Curso Peça pelo WhatsApp -
Cursos

A arte da harmonização
R$ 29,90 ou em 10x de R$ 2,99[seja o primeiro a comentar]Comprar Curso Peça pelo WhatsApp -
Cursos

Curso Mitologia do Vinho
R$ 597,00 ou em 10x de R$ 59,70[seja o primeiro a comentar]Comprar Curso Peça pelo WhatsApp





