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Os vinhos podem ser tão eternos quanto os diamantes?

“Vinhos são eternos”, ouvi de um professor antes de uma degustação emblemática. Será que eles são tão eternos quanto os diamantes do famoso filme do James Bond? Uma vez aprovada pelos paladares mais exigentes, a bebida resistiria ao tempo, feito um imutável monolito etílico? Os vinhos que recebiam 100 pontos do ilustríssimo crítico americano Robert Parker nos anos 1990 receberiam a mesma pontuação hoje?

Tenho minhas dúvidas e o movimento de alguns produtores reforçam essa suspeita. São vinicultores que acreditam que o sucesso do passado não garante a medalha de ouro da permanência do produto no topo das preferências. É uma turma que, em nome da busca incessante pela atualidade, não tem medo de renovar algo considerado extremamente bom, quase perfeito. São produtores corajosos que levam a sério a máxima cunhada pelo escritor italiano Giuseppe di Lampedusa (1896-1957), segundo a qual “para seguir fazendo o mesmo, tudo precisa mudar”.

Um exemplo de quem aceitou de renovar para dar conta do desfio de melhorar ainda mais o que já é ótimo é o da centenária vinícola espanhola Marquês de Murrieta. Nessa incansável busca pela excelência, os responsáveis por ela simplesmente tiraram do mercado uma das joias da coroa da empresa, o Gran Vino Pazo Barrantes, 100% Albariño, deixando cerca de 100 países órfãos.

Essa autêntica revolução começou com um freio no volume da produção do vinho. Depois disso, mudaram a garrafa, atualizaram estudos sobre o solo e o resultado foi a safra 2019, que tive a oportunidade de provar recentemente em degustação na Casa La Pastina, em São Paulo. Deu para atestar no paladar que o esforço foi bem-sucedido. O Gran Vino Pazo Barrantes 2019 mostrou-se um branco fresco, complexo e com um preenchimento de boca inigualável.

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OS SEGREDOS DE RIOJA

Nessa busca por atualidade, o parisiense Artur de Lencquesaing teve um papel fundamental. O francês faz parte da oitava geração de produtores de vinho em Bordeaux, proprietários do Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande. Lencquesaing saiu de casa para estudar finanças em Hong Kong, teve um wine club em Xangai e trabalhou por oito anos no grupo Louis Vuitton Moët Hennessy (LVMH), responsável por algumas das marcas mais caras de desejadas de vinho do mundo.

Muito antes de se ligar profissionalmente à Murrieta, o que ocorreu em 2019, o profissional já tinha uma curiosa história pessoal relacionada a essa vinícola. Certa vez, quando quis impressionar a sogra, deixou de lado a opção francesa mais óbvia. No caso, seria um Château Pinchon, o rótulo que, segundo uma outra máxima do mundo dos vinhos, é o ideal para pedir a esposa em casamento ou fechar um grande negócio. Contrariando o senso comum, Lencquesaing levou para a ocasião um Marquês de Murrieta. Com o quarto filho prestes a nascer, ele hoje dirige a empresa responsável pelo surgimento de uma das regiões vinícolas mais importantes e peculiares do mundo.

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O diretor da vinícola, o parisiense Artur de LencquesaingDivulgação/VEJA
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A trajetória da vinícola Marquês de Murrieta se confunde com a história de Rioja, região norte da Espanha, responsável por vinhos que por vezes seguidas são eleitos os melhores do mundo pela prestigiada publicação norte-americana Wine Spectator e que recebem 100 pontos de críticos como James Suckling e Robert Parker. Rioja tem a Denominação de Origem mais antiga da Espanha, possui cerca de 600 vinícolas, 14.800 viticultores, em cerca de 5.000 quilômetros de terra e o maior parque de barricas do mundo.

Nesse terroir único marcado pelos climas Atlântico e Mediterrâneo, o peruano Luciano Francisco Ramón Murrieta fundou sua vinícola usando técnicas que levou de Bordeaux. O seu primeiro vinho, do lendário vinhedo Igay, foi produzido em 1852. Recebeu o título de nobreza do rei espanhol Amadeo de Sabóia e tornou-se marquês por ter estabelecido naquele país o conceito de “château”, que consiste em ter na mesma propriedade as vinhas e a vinícola. Descendentes do marquês conduziram a vinícola até 1983, até que a família Cebrián-Sagarriga assumiu o controle em 1983. Atualmente, Vicente Sagarriga, atual Conde de Creixell, e sua irmã Cristina, são responsáveis por uma incansável e perceptível busca pela perfeição.

Os vinhos da Murrieta já foram muito comparados aos de Bordeaux, quando queriam lhe atribuir qualidades, como no caso do Gran Reserva 2015, que é elaborado somente em safras excepcionais, 80% Tempranillo, 9% Graciano, 9% Mazuelo e 2% Garnacha, com envelhecimento de 27 meses em barricas de carvalho americano e mais 36 meses em garrafa. Com o passar dos anos, a percepção de delicadeza de seus blends como o Marqués de Murrieta 2020 (um D.O.C Rioja, 82% Tempranillo, 8% Graciano, 7% Mazuelo, 3% Garnacha, com 21 meses de passagem em barricas de carvalho americano) fizeram com que passassem a ser comparados a Borgonha, região centro-leste da França, onde é produzido o lendário Romanée-Conti. “Hoje, temos a certeza e convicção que não há comparação, somos Rioja, temos um vinho que recebeu por 18 vezes 100 pontos, como Castillo Igay. A Espanha tem gastronomia e cultura únicos e inigualáveis, temos humildade, mas cada vez mais confiança na qualidade que nos posiciona entre os melhores do mundo”, contou-me Lencquesaing.

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O castelo da vinícola é um dos edifícios industriais mais antigos da Europa e tornou-se museu em 2019. Os vinhedos são centenários e os tintos só são colocados no mercado com média de 10 anos de envelhecimento, sempre produzidos em escala limitada. Tudo isso gera desejo e valor: o mais simples custa cerca de R$ 500 e aqui no Brasil o mais caro gira em torno de R$ 15.000, todos trazidos pela World Wine.

Como todo mercado de vinhos de alta gama, que tem os Estados Unidos como principal comprador, os responsáveis pela vinícola estão apreensivos agora com a ameaça do presidente americano Donald Trump em tarifar em 200% os rótulos europeus. A saída que já está sendo posta em prática é repartir ao máximo a distribuição. “Para diminuir a dependência dos Estado Unidos, passamos fazer abertura de novos pequenos mercados. Assim, caso a tarifa se confirme não seremos prejudicados”, explicou Lencquesaing. Hoje, 35% da produção da vinícola permanece na Espanha, o que é uma política deles, depois segue para os Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Suíça, como principais compradores. Agora, Nepal, Marrocos e Turquia fazem parte da distribuição nos vinhos, somando 102 compradores da Murrieta pelo mundo.

Mais forte do que qualquer estratégia para não sofrer com a ressaca das políticas de Trump, há a confiança de que os investimentos feitos na vinícola para atualizar os produtos vão manter sempre em alta o interesse pelos rótulos da Murrieta. “Na hipótese de entrada em vigor das tarifas, sinto mais pelo intercâmbio cultural riquíssimo que certamente será interrompido”, disse Lencquesaing.

Afinal, os diamantes engarrafados da Murrieta seguem cada vez mais frescos e preciosos.

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Fonte:

Vinho – VEJA