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O Significado do Vinho na Páscoa: da espiritualidade à experiência à mesa

Não é uma simples coincidência a presença do vinho em momentos onde a humanidade fala de vida, de morte e de renascimento. A Páscoa não é apenas um marco de data religiosa, na verdade é uma arquitetura simbólica onde o vinho ocupa um papel central já há milênios. Neste artigo abordarei alguns pontos centrais sobre a companhia do vinho enfoca diversos aspectos deste período tão importante para os cristãos.

Se analisarmos o vinho é um dos poucos elementos que atravessaram o tempo mantendo significado espiritual quase intacto. Desde oferendas aos deuses em civilizações anteriores ao cristianismo como por exemplo, os povos que habitavam a antiga cidade-caverna de Uplistsikhe, localizada na Geórgia, na regiões do Cáucaso, que data o século VI a.C., e outras civilizações como os sumérios e os egípcios.

Cidade-caverna de Uplistsikhe, Geórgia. Crédito de Imagem: Dayane Casal, 2022

Já com o cristianismo ele ficou diretamente ligado a Última Ceia, onde assumiu um papel central a partir do rito instruído por Jesus Cristo, onde o vinho representa o sangue, não apenas como sacrifício, mas como símbolo de verdadeira aliança. A partir deste gesto tão único e importante, a igreja funda a Eucaristia, que perpetua o vinho como elemento litúrgico até os dias atuais. O vinho torna-se um veículo de memória, fé e presença espiritual.

Quando analisamos estas três passagens percebemos três elementos fundamentais, o sacrifício representando o sangue como entrega, a aliança reforçando um novo pacto entre o divino e o humano e a transcendência onde o vinho deixa de ser matéria e se torna símbolo.

O período da Páscoa ocorre na primavera no hemisfério norte, período de renascimento da natureza. Com o aumento das temperaturas após os meses de inverno, as vinhas acordam e inicia-se um novo ciclo vegetativo. Há um verdadeiro paralelismo simbólico entre o fenômeno da ressurreição ocorrido na Páscoa e o abrolhamento das videiras, em ambos os casos evocam de forma veemente vida após um período de latência.

A Páscoa cristã que conhecemos teve origem na Páscoa judaica, chamada de o Seder de Pessach. Este é um jantar cerimonial realizado para comemorar a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, os passos são guiados pelo livro Hagadá e tem o objetivo de transmitir a história de geração em geração. Neste ritual sagrado envolve consumirem alimentos simbólicos como matsá e ervas amargas, beber quatro cálices de vinho e no decorrer do ritual contar a história do Êxodo.

Muitas são as curiosidades sobre o vinho e os exatos quatro cálices, eles simbolizam vida e esperança. O simbolismo do momento, expressa a alegria e a libertação do povo judeu da escravidão no Egito e segue premissas da tradição rabínica e na Torá. A explicação mais difundida é que os quatro cálices correspondem às quatro promessas de redenção que Deus fez aos filhos de Israel no livro de Êxodo.

Portanto é realizado o Kiddush, a benção cerimonial recitada sobre o vinho para santificar o momento. As imagens acima referem-se aos exemplares antigos de Kiddush Cup, que pude ver pessoalmente e captar essas imagens, quando estive em visita ao Museu do Povo Judeu em Tel Aviv, Israel em 2023.

Penso que seguido ao Natal a Páscoa é uma das datas mais associadas ao encontro entre as famílias. Neste aspecto o vinho funciona como um belo catalisador social, aproximando gerações, estimulando conversas e marca de forma especial a ocasião quando bem escolhido. Aqui o vinho é mais que cultura líquida, ele transporta memórias e verdadeiro afeto.

O período da Páscoa marca uma elevada procura e venda de vinhos com maior qualidade, os ditos “premium”. E isso acontece devido a data representar um momento sagrado de celebração sobretudo em família e em mesa, diferente de outras épocas de datas festivas que envolvem outros contextos. A busca por esses vinhos qualitativos vão de encontro com melhores escolhas enogastronômicas do período de celebração. Importante ressaltar que para o vitivinicultor que se dedica a produção de vinhos especiais, a Páscoa é um momento relevante de valorização do seu produto.

O vinho conecta o sagrado através do rito, o natural através do próprio ciclo da videira, o cultural através dos momentos a mesa seguindo a tradição da ceia, e o emocional colecionando memórias e encontros entre os que mais amamos.
No período da Páscoa, o vinho deixa de ser apenas a bebida que expressa o terroir, ele torna-se a expressão do próprio tempo, da liturgia e da continuidade da espécie humana.

Há diferenças entre os mais variados povos na escolha da gastronomia para a Páscoa, sobretudo em épocas complicadas econômicas ao qual o mundo está passando, mas há algo certo, a presença de uma boa garrafa de vinho para harmonizar com o prato escolhido. Na minha região, a Amazônia, o peixe é o prato de escolha, sobretudo o Pirarucu e o Tambaqui. Na tradição judaico-cristã o Cordeiro é o prato de eleição. Em Portugal sem dúvida é mais um motivo para comer o belo e o bom Bacalhau. No Brasil de modo geral, na Páscoa há também um enorme consumo de Bacalhau nesta altura, devido a influência portuguesa em nossa cultura.

Um dos princípios de harmonização clássico é que o alimento ou algum elemento da gastronomia é que direciona a escolha do vinho, mas abaixo farei o inverso, partilharei algumas sugestões enfocando três estilos de vinhos, e assim você leitor poderá se divertir na escolha do vinho e do prato conforme o que estiver ao seu alcance.

Caro leitor, desejo com este texto possa ter contribuído com o seu crescimento dentro da cultura vínica, onde enfoquei a importância deste alimento milenar, desde o seu aspecto religioso até o seu papel em nossas mesas no período da Páscoa.
Que esta Páscoa seja mais um oportunidade de saldarmos com alegria a um novo período de renascimento, com muita prosperidade, abundância e saúde.
Uma Páscoa especial à você ao lado dos seus e de grandes vinhos !
Saudações Báquicas !!!

Fonte:

Mundo de Baco por Dayane Casal