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O negócio de luxo financiado pelo vinho popular mais vendido do país

“Nos últimos 40 anos no Brasil, não surgiu por aqui uma só vinícola que não fosse por hobby. Eu respeito, mas pode ter certeza que a conta não fecha.” A frase, de uma secura e peso digno de um Tannat dos pampas, foi disparada por quem pode ser considerado a maior autoridade do país em negócio vinícolas: João Zanotto, proprietário da vinícola Campestre, em Vacaria, cidade do norte gaúcho conhecida como a “porteira do Rio Grande” por sua grande tradição na pecuária e na agricultura. Ali, na Campestre, Zanotto produz desde 1968 um fenômeno comercial: o Pérgola, feito com as uvas americanas das variedades Bordô e Isabel. Recentemente, pelo 12º ano consecutivo, ele recebeu o título de vinho mais vendido do Brasil, com 45 milhões de litros no último ano.

O produto é exportado para os Estado Unidos, Suriname, Guiana Inglesa e, mais recentemente para o Reino Unido. Zanotto havia acabado de fechar negócio na noite do último dia 23 com um importador britânico quando se sentou no restaurante da Campestre para jantar comigo e outros convidados um menarosto, um assado típico italiano, de diversos tipos de carne, em um espeto giratório, acompanhado de polenta. Estava delicioso, por sinal, e como sobremesa um sagu foi servido sagu feito com Pérgola, creme e noz pecã.

Fazer vinho de qualidade no país é mesmo uma forma de colocar dinheiro na terra e dela não extrair lucros, como sugere Zanotto? A declaração pode até parecer provocação, diante da multiplicação de vinícolas sendo criadas de norte a sul do Brasil. Ironicamente, o próprio autor da frase vem investindo nos últimos anos nesse negócio. Sim, isso, mesmo, a mesma vinícola do popularíssimo Pérgola entrou firme no mercado premium. Em 2014 ele embarcou na aventura do vinho fino, nomenclatura enjoada para os produzidos com vitis viníferas.

Um ano depois, a primeira vinha de Merlot foi plantada em Vacaria, no terreno que um dia foi sede do Frigorífico Vacariense. Um investimento de R$ 30 milhões para dar ares de Toscana aos 23 mil metros quadrados da propriedade, onde se vê hoje equipamentos italianos e tecnologia de ponta na vinificação, além de uma equipe de dez enólogos comandos por André Donatti. Em 2024, Donatti levou o título de enólogo do ano pela Associação Brasileira de Enologia (ABE). A linha de vinhos finos é a grande novidade em meio às instalações de uma empresa que cresceu e prosperou de forma impressionante ao longo das décadas. Para se ter ideia da dimensão do que Zanotto construiu, é preciso vencer 10 quilômetros de estrada para percorrer o complexo com as instalações industriais (vinificação, câmaras frias e envase do Pérgola), vinhedo, lago, restaurante, capela e uma cave subterrânea com cerca de 200 barricas francesas e americanas. Confira aqui um vídeo sobre a propriedade:

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A Zanotto, nome da vinícola dedicada aos vinhos finos, já conquistou uma medalha de ouro no Decanter World Wine Awards com o Zanotto Sangiovese e de bronze para a o Zanotto Sauvignon Blanc, ambas 2021, além do bronze para os espumantes Brut Zanotto. Apesar dos aplausos, a operação ainda está longe de dar algum lucro. Qual o sentido então de colocar dinheiro nesse negócio? “É o tipo de vinho que eu tomo”, justificou Zanotto. No mesmo estilo franco, ele contou que é o Pérgola que está pagando a conta dessa expansão para o mercado de vinhos finos. Segundo ele, um investimento do tipo só faz sentido se o empresário estiver pronto para fazer a primeira colheita de lucro a longo prazo. Além disso, de acordo com o empresário, a produção de vinhos finos precisa ser harmonizada com o enoturismo, outra frente de investimento que a Campestre está apostando pesado.

No caso dos vinhos finos, a área da Campestre tem uma séria de vantagens para uma produção do tipo. Nesse planalto, quase na divisa com Santa Catarina, onde está Vacaria, com altitudes que variam de 900 a 1.200 metros, os dias são quentes e temperaturas amenas. Há invernos severos, como prova uma foto exposta na  entrada da Vinícola Campestre. A imagem é do vinhedo de Merlot completamente branco, com neve alta, em julho de 2021. Por lá, a amplitude térmica perfeita (com grande diferença de temperatura ao longo do dia) é ideal para a maturação das uvas. Outras vantagens naturais são o solo e o microclima que a definem como região única. “Nosso Sauvignon Blanc, por exemplo, é diferente de todos do mundo, é possível provar às cegas e pelas características identificar a região”, garante Donatti.

lago
Vista do lago da Campestre congelado no inverno de 2021Divulgação/VEJA
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No campo do enoturismo, parte da propriedade está em ritmo acelerado de construção. Até 2028, a Campestre pretende receber visitantes em um hotel 115 quartos, com 40 metros quadrados cada um. Zanotto descarta se associar a qualquer bandeira para administrar o negócio. “Quero liberdade, vamos fazer do nosso jeito”, exeplicou, em bom gauchês. Enquanto a obra não termina, é possível fazer degustações harmonizadas na varanda com vista para o vinhedo, almoçar no restaurante, que já atende cerca de 500 pessoas por mês, além de fazer as visitas guiadas.

O DREAM TEAM DO AGRONEGÓCIO

Não é apenas a Campestre que se movimenta na direção do enoturismo naquela região. Sete produtores capitaneados pelo enólogo André Donatti uniram-se para pleitear a terceira denominação de vinhos do Brasil, chamada Campos de Cima da Serra. Nessa nova DO, que está prestes a ser aprovada, poderão receber o novo selo vinhos feitos com uvas exclusivamente da região, das uvas Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Merlot, Chardonnay e Cabernet Sauvignon. Entre as especificações para champenoise está o tempo de autólise, nome técnico para o contato com as leveduras durante a segunda fermentação, de no mínimo 10 meses. “Desenvolvemos o caderno de especificações de maneira a criar vinhos de altíssima qualidade”, diz o enólogo. Assim que sair o carimbo do INPI, entidade responsável pelo DO, uma junta de pessoas da região e convidados será formada para decidir quais os vinhos poderão ou não receber o selo.

Com a DO os produtores apostam que virá mais visibilidade e prestígio para a região, que pretende ser colocada no mapa impulsionada por um pool de enoturismo, que começa a ser desenhado pelos sete produtores de vinho locais. Trata-se de uma espécie de dream team do agronegócio brasileiro, em uma iniciativa colaborativa raramente vista no mercado nacional. A pouco quilômetros da Campestre, também na mesma rodovia, encontra-se outra gigante, a RAR. Ela é a principal produtora de maçãs do país, possui a primeira fábrica do queijo tipo Grana fora da Itália e tem um portifólio com 32 rótulos de espumantes. Outra integrante do movimento, a família Lemos de Almeida, um dos grandes produtores de soja do país, criou uma vila açoriana, honrando descendência portuguesa, para atrair visitantes e ajudar de vendar as 100 mil garrafas produzidas por ano.

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Para Zanotto, os investimentos se complementam. “Hoje, o que vende vinho fino é enoturismo e indicação”, diz o empresário. Por isso, em todas as lojas da marca, é possível experimentar quantos vinhos o cliente quiser — há sempre garrafas abertas para degustação. Atualmente, operação da Zanotto produz 15 mil garrafas por ano. Até 2030 a empresa pretende chegar à capacidade máxima, que será de 400 mil litros por ano, menos de 1% da operação do Pérgola.

Até lá, acredita o empresário Zanotto, o braço de vinhos finos da Campestre, combinado ao enoturismo impulsionado pela nova DO, deixará de ser um hobby para trazer os primeiros lucros ao grupo.

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Fonte:

Vinho – VEJA