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No Dia da Mulher, vamos ouvi-las entrevistando 4 sommelières

(na imagem, da esquerda para direita – Deise Novakoski, Elaine Oliveira, Maíra Freira e Cecilia Aldaz)

 

Durante muito tempo, no mundo do vinho, os homens falaram mais alto. Neste Dia da Mulher, decidi fazer o contrário: ouvir.

 

Fiz as mesmas cinco perguntas a quatro sommelières de destaque no Rio de Janeiro: Maíra Freire, do restaurante Lasai; Cecilia Aldaz, do ORO; Deise Novakoski, primeira sommelière do Brasil; e Elaine de Oliveira, sommelière e colunista da Marie Claire.

 

As respostas mostram que o vinho não tem gênero — mas o mercado ainda carrega velhos vícios. Revelam também algo mais importante: talento, estudo e personalidade não pedem licença.

 

1-Existe algo que só as mulheres entendem ou percebem no universo do vinho — que os homens normalmente ignoram?

Cecília: Não conheço estudos científicos que comprovem diferenças sensoriais universais entre homens e mulheres na degustação de vinho. O que existe são variações individuais — treino, memória olfativa, repertório cultural muito mais determinantes do que o gênero. Na minha experiência, homens e mulheres tendem a observar o vinho a partir de ângulos diferentes, não melhores ou piores. Essas diferenças enriquecem a degustação quando estão na mesma mesa. O que não me parece saudável é transformar essas percepções em regras ou estereótipos. O vinho não responde ao gênero. Ele responde à atenção e à capacidade de escuta. Degustar junto, com olhares distintos, amplia a leitura do vinho e isso vale para qualquer área em que sensibilidade e rigor caminham lado a lado.

Deise: Ainda que os homens não ignorem o aspecto olfativo de um vinho, as mulheres são mais sensíveis e memorizam melhor as camadas olfativas de uma bebida.

Elaine: Eu não gosto da ideia de que exista algo que só mulheres entendem, porque vinho não exclui ninguém. Mas a ciência mostra, sim, que em média as mulheres têm uma sensibilidade olfativa maior. Existem estudos sérios que apontam que o bulbo olfatório feminino tem mais neurônios, e isso ajuda na percepção e na identificação de aromas. Na prática, isso não quer dizer que mulheres sintam mais aromas como um superpoder, mas que muitas vezes percebem, sim, alguns aromas com mais facilidade. Mas o mais importante é dizer que sensibilidade não substitui treino. O que realmente faz diferença no copo é repertório.

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Maíra: Já ouvi dizer que mulheres tem um senso de olfato mais apurado que homens, não sei sobre isso, penso que isso talvez seja uma impressão devido ao papel estereotipado que a mulher ocupa no imaginário, com uma ligação forte a aromas, perfumes, cosméticos etc, assim como com a cozinha, referências aromáticas captadas desde mais jovem por estar mais próxima as tarefas de cozinha. Mas isso depende de um recorte geracional, de classe social de universo cultural e tudo o mais. Afinal, ser mulher é algo que se aprende e que é atravessado por todas essas questões.

 

2-Qual é o maior estereótipo sobre a mulher no mundo do vinho que ainda precisa morrer?

Cecília: Talvez o maior estereótipo seja a tentativa de enquadrar a mulher em um modelo único: a mulher “mais sensível”, “mais intuitiva”, “mais delicada” ou, no extremo oposto, a ideia de que precisa se masculinizar para ser levada a sério. Sinceramente, não consigo identificar um perfil único de mulher sommelier. Ao longo da minha trajetória, conheci profissionais completamente diferentes entre si: técnicas, acadêmicas, comunicadoras, silenciosas, comerciais, enólogas de vinhedo, de adega, de laboratório e de mercado.

No vinho, como em qualquer campo de atuação, o que sustenta uma carreira é a coerência ao longo do tempo — não o gênero.

Deise: O maior estereótipo é usar o adjetivo “feminino” ou a classificação “bebida de mulher”. O bom degustador usa adjetivos como: aveludado, elegante, pouco tânico, macio. Já as classificações podem ser: para sobremesa, brancos, tintos e rosés tranquilos, espumantes brancos, tintos e roses, fortificado.

Elaine: Que mulher só entende de vinho leve, fresco, branco ou espumante. Isso é cansativo, ultrapassado e simplesmente falso. Mulher entende de vinho bom. Ponto. De Barolo a Jerez, de Borgonha a Lisboa. Outro estereótipo que precisa morrer é o da mulher como a comunicadora simpática do vinho, enquanto o homem é o técnico, o especialista, o profundo. Mulheres estudam, provam, erram, acertam e sabem tanto quanto qualquer um. Muitas vezes sabem mais, só não foram ensinadas a se impor da mesma forma.

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Maíra: em relação aos estereótipos, é uma vergonha que até hoje tenha gente que diga que vinho adocicado e rose são coisas femininas. A coisa de ser associado a um bibelô e como se todas as mulheres fossem iguais e com os mesmos gostos.

 

3-Se você pudesse falar algo, sem filtro, para uma jovem que quer trabalhar com vinho hoje, o que diria — inclusive o que ninguém te avisou? 

Cecília: Eu diria: estude mais do que você acha necessário. O vinho é um universo sedutor, mas exige base sólida. No início, será preciso provar mais, explicar mais e errar menos, não apenas por ser mulher, mas porque o vinho ainda confunde carisma com consistência profissional. E diria também: não construa sua carreira em oposição a ninguém. Construa a partir de si mesma. O reconhecimento vem com o tempo, quando o trabalho fala por você.

Deise: Não use roupas apertadas e decotadas, não use unhas postiças longas e pintadas de cores escuras. Vista-se com cores neutras e não use perfumes, cremes e maquiagem que possam interferir no aroma dos vinhos. Ser sommelière é profissão, ser enófila é hobby.

Elaine: Eu diria: estude muito! Ninguém avisa que, no começo, você vai ser testada o tempo inteiro. Que vão duvidar mais, interromper mais, explicar o óbvio mais vezes. Não é pessoal, é estrutural. Diria também: tenha personalidade, construa sua voz. Não copie ninguém. O vinho precisa de mais mulheres sendo elas mesmas, não versões encaixadas de um modelo antigo.

Maíra: O que eu diria para uma menina começando, procure as mulheres que te interessam, leia mulheres, escute mulheres, beba com mulheres. Nao digo para excluir ninguém, mas preste atenção nisso. Trabalhe sua confiança profissional por aí.

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4-Em que momento você sentiu que ser mulher pesou na sua trajetória? Qual foi a situação mais machista, desconfortável ou injusta que viveu no mundo do vinho — e o que aprendeu com ela? 

Cecília: Houve situações desconfortáveis, sim comentários condescendentes, dúvidas veladas sobre competência e momentos em que minha opinião só foi validada quando repetida por um homem. Lembro claramente de ter apontado que um vinho estava bouchonné (aquele defeito clássico associado a algumas rolhas contaminadas) e a observação só ganhar credibilidade depois que um colega homem confirmou a mesma percepção. Não foi um episódio isolado, mas nunca deixei que isso me definisse. Aprendi que reagir com vitimização não muda estruturas. No vinho, o tempo é um aliado poderoso. Ele ensina, coloca tudo em perspectiva e mostra quem está disposto a aprender continuamente. A humildade, para mim, segue sendo uma das chaves mais importantes do conhecimento.

Deise: Quando fui excluída pela primeira vez. A mais machista quando me disseram que a vaga do trabalho só poderia ser ocupada por outro homem. E a maior injustiça é que além de continuar sendo mulher, agora também sou “velha”. E a luta nunca acaba!

Elaine: Eu não sinto que ser mulher tenha pesado na minha trajetória. Nunca me coloquei nesse lugar de limitação. Sempre trabalhei com foco e muito estudo. Mas já vivi situações desconfortáveis, sim. Quando eu trabalhava como sommelière em restaurante, fui chamada à mesa para entregar a carta de vinhos. Chamaram o sommelier da casa. Quando cheguei, o cliente me olhou de cima a baixo, perguntou se eu era o sommelier e, diante da minha confirmação, simplesmente me dispensou. Me chutou dali como se eu não fosse digna de ocupar aquele espaço. Foi uma situação constrangedora. Eu senti vergonha por ele. Porque o problema nada tinha a ver com a minha competência. Estava na visão limitada dele. O que eu aprendi é que você não controla o preconceito do outro, mas controla a sua postura. Continuei fazendo meu trabalho com excelência. E excelência, no fim das contas, é sempre a resposta mais elegante.

Maíra: O que eu de fato percebo, no meu espaço de vivência nessa área é que nós mulheres não fazíamos parte da conversa no mundo do vinho, poucas foram penetrando e se fazendo ouvir, mas em geral não éramos convidadas para a mesa de discussão. Esse lugar anônimo e de quem está de fora pode ser de muita liberdade, acho que isso permite que busquemos o que realmente nos move e nos interessa sem a necessidade de participar de uma cena que não nos inclui. Acho que essa mudança recente no protagonismo, com a presença cada vez mais forte e importante de mulheres se deve um pouco a isso, correram por fora e foram atrás de novos pontos de vista e maneiras de trabalhar e pensar o vinho.

 

5-Há alguma vantagem em ser mulher no mundo do vinho ou só desvantagens em relação aos homens?

Deise: Sabemos que desvantagens em relação aos homens existem em todas as áreas, na sommelierie elas tendem a ser maiores – e aí mora a “vantagem”. Furar essa bolha, quebrar as barreiras e fazer a diferença entre tantos homens. Essa é a maior recompensa em ser sommelière.

Elaine: Existe vantagem, sim. A mulher tende a criar conexão. Com o vinho, com a história, com quem está do outro lado da taça. Muitas mulheres comunicam o vinho de forma menos hierárquica, menos autoritária, mais generosa. Isso aproxima pessoas, tira o medo, convida para a mesa. E o vinho nasceu exatamente para isso, para compartilhar. Claro que ainda existem obstáculos, mas hoje eu vejo que ser mulher também me deu um olhar mais sensível para o detalhe, para o contexto. E vinho, no fundo, é isso. Não é só técnica, é saber sentir também.

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Maíra: É muito desagradável ser tratado como um boneco, incapaz de opinião, ou ter suas percepções invalidadas. A presença feminina em restaurantes foi por muito tempo em um lugar de bibelô para ser apreciado e caladas ouvimos muitas coisas desrespeitosas e degradantes a respeito de outras mulheres, quando em uma posição que não nos permitia autonomia para falar, frente a um cliente num ambiente desfavorável. Fico muito satisfeita com a mudança dessa situação para uma parte das mulheres, meu ambiente de trabalho hoje limita bastante esse desconforto. Lembrando que estamos falando de um recorte específico, mulheres que trabalham em restaurantes de classe A. Não quero ser leviana e desconsiderar o que ainda acontece contra mulheres em outros espaços.

 

O vinho sempre me ensinou que maturidade leva tempo. Que estrutura sem elegância não basta. Que potência sem equilíbrio cansa. Talvez o mercado também precise decantar um pouco mais. O talento e a competência já estão à mesa. O que ainda precisa amadurecer é o olhar de quem insiste em duvidar. Neste Dia da Mulher, mais do que celebrar, prefiro aprender. E continuar ouvindo.

— Marcelo Copello

 

 

 

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Fonte:

Comer & Beber – VEJA RIO