
Em pleno século XXI e dentro do setor vitivinícola mundial, a França continua a reinar como referência na produção vitivinícola, sobretudo pelo posicionamento de valor qualitativo da produção da Vitis vinífera, assim como dos seus vinhos. Apesar da região do Cáucaso ser o verdadeiro berço do vinho, desde a antiguidade em terras francesas já se produziam e consumiam esta bebida. Ânforas e um molde de calcário datado 525-474 a.C. foram encontrados no sítio arqueológico Lattara, localizado na cidade de Lattes, próximo a Montpellier, sul da França. Esses são os indícios mais antigos encontrados neste país com relação ao vinho. Estas evidências corroboram que foram os povos Etruscos que introduziram neste local as práticas vitivinícolas, na época a região era denominada Gália.
1. Idade Média: O Início da Prestigiosa Reputação
No período histórico da Idade Média a ordem religiosa de Cister teve um significativo e importante papel na vitivinicultura francesa. Os monges cistercienses eram conhecidos pela busca de uma vida mais simples, rigorosa, austera, de orações constantes e do trabalho manual, sobretudo na agricultura. A partir do século XII eles passaram a estudar e sistematizar o cultivo de videiras e dos processos de vinificação. Eles descobriram que certas castas como a Pinot Noir e Chardonnay tinham desempenho extraordinário nas encostas da Borgonha e passaram a desenvolver diversas práticas de manejo para maximizar a qualidade. O período da era Medieval foi crucial e marcou o início da prestigiosa reputação francesa de vinhos qualitativos. E isso foi devido os monges terem documentado de forma rigorosa as práticas da viticultura, os métodos de vinificação, mapearam os solos e os “climat “, estabelecendo assim o melhor de cada área para cada cepa. A partir daí a produção se tornou exportada e valorizada além das fronteiras da França.
2. A Consolidação da Autoridade Internacional
Se tornando pioneira em desenvolver sistemas formais de classificação e controle de qualidade, a França se tornou um modelo para o mundo. Com o passar do tempo várias regiões vitivinícolas francesas desenvolveram estilos próprios de vinhos e cultivos de cepas emblemáticas que na atualidade são usadas como padrão internacional. A exemplo disto a região de Bordeaux com seus sofisticados blends a base de Cabernet Sauvignon e Merlot , a região da Borgonha como ícone de finesse com os seus Pinot Noir e Chardonnay e a região de Champagne com seu método tradicional de espumantização. Toda esta diversificação geográfica e de castas levou este país a se tornar um modelo de excelência e especialização.
3. Sistemas de Qualidade e Instituições
O ano de 1855 se tornou um marco para este país devido a Exposição Universal de Paris, onde foi criada uma classificação oficial dos vinhos da região de Bordeaux, nesta foram colocados em hierarquia os melhores produtores de acordo com a reputação e o preço, se tornando um marco no reconhecimento sistemático da qualidade. Alguns destes foram Château Lafite Rothschild, Château Mouton Rothschild, Château Margaux, Château Latour e Château Haut-Brion.
Já no início do século XX foram criadas a instituição ” Institut National des Appellations d’Origine (INAO)” e toda a estrutura de Appellation d’Origine Contrôlée ( AOC ) , com a finalidade de proteger e regulamentar a origem e os métodos de produção. A partir daí muitos países passaram a adotar estas práticas regulatórias. O foco francês em criar sistemas de qualidade, identidade regional e instituições protetoras das práticas, ajudou a elevar o status do vinho da França a nível global, também possibilitou disseminar o conceito valioso francês de “terroir” .
Com o passar dos tempos rapidamente os estilos franceses passaram a se tornar referências técnicas dentro da viticultura e da enologia. Os blends clássicos de Bordeaux, as castas como Pinot Noir e Chardonnay passaram a dominar a vitivinicultura em quase todos os países produtores de vinho. E estando in loco na Geórgia e Armênia pude constatar a própria influência francesa dentro do berço do vinho, na região do Cáucaso. A inspiração francesa pela qualidade veio a induzir a escolhas das castas plantadas, as técnicas de produção, de maturação, os critérios de degustação e até a educação técnica na enologia. Todo este legado conquistado por séculos explica por que até os dias atuais os vinhos de outros países em muitos casos são comparados ao estilo francês, símbolo de qualidade e identidade.
4. Dados Atualizados de Produção, Exportação e Consumo da França
Os dados de produção de vinhos franceses em média rondam entre 45-50 mhl/ ano, isto representa cerca de 6 a 7 bilhões de garrafas, isto em anos normais, mas os dados das safras mais recentes (2024 e 2025 ) têm evidenciado queda entre 16 a 23 % devido a condições climáticas. O volume total exportado tem se mantido estável ou em leve crescimento recente, mesmo diante dos desafios econômicos e da menor produção. Em 2024 as exportações ficaram em cerca de 10,8 a 11,2 mhl ( 1,44 a 1,45 bilhões de garrafas ) volume praticamente estável em relação ao ano anterior, com pequenas variações por categorias de vinhos como espumantes, engarrafados tranquilos e bag-in-box . O valor nas exportações em 2024 foi cerca de 10,9 bilhões de Euros ( Fonte de dados : OIV.int ; Meininger.de ; Vinetur.com ).
Os principais mercados em termos de valor e volume são em primeiro lugar os Estados Unidos , seguido por países da União Europeia como Alemanha, Bélgica, Reino Unido, Países Baixos e os países asiáticos como a China, este último considerado instável e em declínio recente. O consumo interno apresenta forte queda a nível per capita, em especial nos vinhos tintos. As mudanças socioculturais têm sido as grandes causadoras desta redução a nível doméstico e também dentro da própria Europa. Em 2024 o consumo interno francês foi de 23 mhl de vinhos, o menor nível registrado desde 1961 ( Fonte de dados : OIV.int ).
5. Palavras Finais
Me inspirei a redigir este artigo depois de participar de uma belíssima prova de vinhos franceses nesta semana onde três regiões francesas ( Borgonha, Vale do Loire e Champagne) estavam presentes representadas por oito verdadeiros néctares de Baco. Me veio as lembranças de tantas viagens que já fiz a praticamente todas as regiões vitivinícolas francesas, e a reflexão de como os vinhos qualitativos franceses se fincam no conceito “terroir“, lembrando que este é muito mais do que solo, castas, clima, ele inclui a expertise humana. A França se consolidou como referência mundial não apenas pela sua rica história, não apenas pelas tradicionais AOC/AOP, não apenas pela expressão do terroir no vinho, não apenas pela escala de estilos qualitativos, ela se consagrou pelo grande POSICIONAMENTO DE VALOR dos seus produtos a nível global, gerando um valioso branding.
Espero com este texto gerar reflexão à você que trabalha dentro do setor do vinho ou em você que é um amante desta bebida milenar e sagrada, sobre como um país de forma brilhante consegue vender os vinhos mais valiosos do mundo, os Grand Cru.
Se você gostou deste texto deixe seu comentário e partilhe com alguém que valoriza conhecer mais sobre a cultura vínica global. Se deseja obter conhecimentos mais profundos sobre a história do vinho, convido-o a adquirir meu livro Vinho Viagem Cultural ( Link abaixo ) .
Saudações Báquicas, Boas Provas e Saúde!
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