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Monte Carmelo: o vinhedo de Deus e um dos terroirs mais simbólicos da humanidade

Existe uma coincidência entre a etimologia da palavra “Carmelo” ou “Karmel” com o próprio terroir vínico. Esta palavra hebraica “Karmel” significa “vinhedo de Deus”, “vinhedo fértil” ou “jardim de Deus”. E o interessante, é que não é apenas uma metáfora da bíblica, mas a descrição exatamente desta cadeia de montanhas cuja fertilidade, proximidade ao mar e o clima favorecem a viticultura já há milênios. É fascinante imaginar que um dos lugares mais simbólicos para a espiritualidade judaico-cristã tem como nome uma referência tão direta ao cultivo da terra e da vinha. Estive visitando in loco este terroir tão singular em Israel, e não posso deixar de partilhar a emoção que me invadiu, pois para mim, que dedico-me a comunicar o vinho como expressão de cultura e humanidade, ele representa um encontro raro entre geografia, história, espiritualidade e tudo o que carrega o conceito de terroir. Um lugar onde o nome, a paisagem deslumbrante e a viticultura contam a mesma história. Neste artigo partilharei diversas curiosidades sobre este tema que conecta de forma tão emblemática a vinha ao divino.

A história destas terras se confunde com a própria história de Israel. Todas as características deste terroir favorecem a viticultura desde a Antiguidade. Escavações arqueológicas conduzidas pela Israel Antiquities Authority demonstram numerosos lagares escavados em rocha, instalações de prensagem, ânforas e complexos industriais destinados à produção de vinho. Tais evidências evidenciam que a região era um importante centro vitivinícola, especialmente durante a época dos Romanos e Bizantinos, quando a produção atingiu escala comercial. No entanto, esta prática possui raízes muito mais antigas, remontando a idade do Bronze e à idade do Ferro, época em que a videira já desempenhava um papel econômico social e religioso nas terras antigas de Israel, conforme fonte IAA.

Nos 400 anos de domínio do Império Otomano (1517-1917), ocorreu praticamente a devastação por completa desta cultura milenar, ficando vivas somente pequenas produções de uvas destinadas ao consumo in natura, passas e pequenas quantidades de vinhos de forma muito insignificantes.

A verdadeira reconstrução desta cadeia econômico após a queda dos Otomanos, ocorreu somente em 1882, e foi impulsionada pelo Baron Edmond de Rothschild, um grande banqueiro, proprietário do Château Lafite em Bordeaux, França. Ele financiou a introdução de técnicas modernas de viticultura e enologia, estabeleceu novas áreas de produção de Vitis na região do Carmelo e fundou a adega que daria origem à atual Carmel Winery. Inicialmente começaram a produzir somente vinhos Kosher para enviar para os judeus espalhados pelo mundo, na altura era um vinho de baixa qualidade, e só a partir de 1960 começaram a produzir vinhos secos, dando a partir daí os primeiros passos para levar os vinhos de Israel ao mercado internacional. Este movimento marcou o renascimento do vinho israelita, transformando uma tradição milenar numa indústria moderna e internacionalmente reconhecida, sem romper os vínculos históricos que unem o Monte Carmelo à cultura da videira há mais de três milênios.

A cadeia de montanhosa Carmelo está localizada no norte de Israel, estendendo-se por cerca de quase 40 km desde o interior até o mar Mediterrâneo, junto da linda cidade portuária de Haifa. Sua altitude varia a partir de 100 metros, e o seu pico mais alto atinge cerca de 546 metros acima do nível do mar. O terroir reúne diversas características favoráveis a produção de boas Vitis e vinhos de elevada qualidade.

O clima é mediterrâneo, com verões quentes e secos, invernos amenos e chuvosos. As brisas constantes vindas do mar refrescam os vinhedos durante a tarde, reduzindo a stress hídrico, preservando a acidez dos bagos, os mantendo arejados e contribuindo com a sanidade contra as infecções fúngicas. Há vales mais frescos entre as encostas do Carmelo, onde a maturação dos bagos ocorre de forma mais lenta e equilibrada. Os solos são predominantemente calcários, com a presença de giz, margas e afloramentos rochosos, oferecendo boa drenagem.

Uma curiosidade sobre os vinhedos cultivados para vinho em Israel, foram todos destruídos pelos muçulmanos nos 400 anos de dominação deste território, não restando nenhum vestígio de castas autóctones. Com o retorno da produção foram implantados novos vinhedos com as castas francesas e que até os dias de hoje dominam a produção do país como Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Petit Verdot, Pinot Noir, Grenache, Viognier, Sauvignon Blanc e Chardonnay. Há um pequeno movimento ainda insipiente de tentativa de resgatar cepas que foram produzidas na região como com a casta Argaman, que acredita-se ser mais semelhante ao que se produzia antigamente, que trata-se de um cruzamento das castas Mazuelo ou Carignan com a portuguesa Sousão.

Crédito de Imagem : https://meety.co.il

Preservando-se como um dos mais importantes terroirs vitivinícolas de Israel, o Monte Carmelo conjuga a tradição milenar com uma moderna e tecnológica viticultura. Os vinhedos são implantados em encostas de solos calcários, beneficiam-se da influência moderadora do mar, pelas amplitudes térmicas, brisas constantes, fatores que conjugados favorecem a maturação equilibrada das uvas. As principais cepas cultivadas são predominantemente as francesas já citadas acima e os sistemas de condução mais utilizados são espaldeira. A irrigação por gota-a-gota é uma tecnologia amplamente desenvolvida por Israel e é utilizada de forma extremamente precisa com a ajuda de sensores de humidade e com uma viticultura de precisão otimizando o uso do recurso hídrico ao máximo.

A Carmel Winery destaca-se como um dos mais relevantes e principais produtores da região, onde possui a mais histórica adega de Israel. A empresa é reconhecida pelos vinhos emblemáticos como o Single Vineyard, Mediterranean e Private Collection. Também há a Amphora Winery localizada junto ao Monte Carmelo, que veio a se tornar uma referência da modernna enologia israelita, produz vinhos em pequena escala com forte identidade de terroir, autenticidade, destacando-se os vinhos com cortes bordaleses e varietais com a Syrah, Cabernet Sauvignon e Merlot. Já a Binyamina Winery também se localiza na região, combina tradição e inovação, produzindo vinhos desde patamares acessíveis até premium como o The Chosen, Reserve e Prestige.

Para a tradição bíblica o Monte Carmelo representa um lugar singular por simbolizar o encontro entre a fertilidade de Deus e a promessa de renovação. Segundo o livro de I Reis capítulo 18, foi nestas terras que o profeta Elias enfrentou os profetas de Baal, num dos episódios que demonstra que a verdadeira fonte da vida não estava nos cultos pagãos da fertilidade, mas no Deus de Israel. Após a descida do fogo sobre o altar e o reconhecimento do povo, Elias orou intensamente até que as primeiras nuvens surgissem no horizonte, anunciando o fim de uma longa seca e o regresso da chuva. É citado ao longo da bíblia como um símbolo de abundância, fecundidade e benção divina, transcendendo assim a riqueza do solo, transbordando na restauração espiritual que precede toda verdadeira prosperidade. Onde antes de florecer a terra, é o coração humano que precisa voltar à sua “fonte”.

Quem visita o Monte Carmelo busca a reunião da natureza, história e espiritualidade. O local é mágico e repleto de pontos para visitação como os deslumbrantes e majestosos Jardins Bahá’ís, localizado na cidade de Haifa e que é desde 2008 inscrito como Patrimônio da Humanidade pela Unesco , este possui um santuário com uma suntuosa cúpula com as telhas todas em ouro, inclusive produzidas pela empresa portuguesa Porcel, localizada na Bairrada. O Mosteiro Stella Maris , construído sobre a gruta associada ao profeta Elias. E se você ama natureza, florestas, trilhas recomendo Parque Nacional do Monte Carmelo, uma vasta área de cerca de 21.000 ha .

Cada vez que me debruço num novo tema dentro do universo do vinho constato o quão esta cultura sagrada e milenar interliga tantos pontos que envolvem o ser humano, a história, a cultura, a geopolítica, a economia, o turismo e a espiritualidade. O vinhedo de Deus é mais um testemunho de quão importante esta bebida foi e é se fundindo ao divino. Algo que não referi anteriormente, a ordem dos Carmelitas recebeu este nome em homenagem ao Monte Carmelo, eram monges que se dedicavam muito as práticas agrícolas. Desejo que este texto possa ter contribuído com o seu crescimento vínico. Se desejar pode partilhar aqui nos comentários suas percepções.
Saudações Báquicas, Boas Provas e Saúde!

L’CHAIM!

Nenhuma outra bebida passou na cronologia da história humana sendo símbolo de status social, civilidade, longa vida, saúde e proporcionando socialização. Exaltada pelas mais célebres personalidades, cruzando as mais importantes civilizações. Este néctar sagrado foi representado em objetos de artes nos mais diferentes períodos e carrega uma riqueza de conhecimentos multidisciplinares. Na época contemporânea, as moléculas presentes em sua composição foram devidamente identificadas e a ciência comprova o que os antigos já sabiam, os seus inúmeros benefícios a saúde humana quando consumido de forma moderada e frequente. Conheça as páginas deste livro que convida a uma verdadeira Viagem Cultural. Adquira já o seu exemplar clicando na imagem.
Fonte:

Mundo de Baco por Dayane Casal