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Vinho Elemento Terapêutico: Da Antiguidade às Modernas Pesquisas da Era Contemporânea

O uso terapêutico do vinho é tão antigo quanto a própria civilização, desde os mais antigos povos já o consideravam uma dádiva divina e um remédio essencial, até à ciência moderna, que investiga os seus compostos bioativos ao nível molecular, o vinho tem ocupado um lugar de destaque na história da medicina e da nutrição humana. Neste artigo explorarei alguns dados históricos desde a antiguidade, seus principais compostos bioativos, seus mecanismos de ação e alguns dos seus benefícios a saúde nos mais recentes estudos. O objetivo não é catequizar ninguém ao seu consumo, mas criar um senso de análise crítica ao que temos de fato como pontos para serem conectados e assim poder gerar “massa pensante” que se assim concluírem, poderem se contrapor a imposições e generalizações sobre o consumo de álcool e/ou de bebidas alimentares que contenham álcool. E neste último ponto há um mundo de diferenças.

Este tema desperta fascínio e debate há milênios, os mais antigos povos sumérios remontando à cultura na Mesopotâmia, o uso medicinal do vinho já ocorria e ficaram registrados em tabuletas de argila rudimentares com a escrita cuneiforme “prescrições farmacológicas” que continham orientações terapêuticas com a utilização do vinho, também dizeres como ser capaz de magia e longa vida.

Longe de ser apenas uma bebida de celebração em rituais, o vinho era um elemento central na farmacopeia antiga, os antigos egípcios utilizavam como veículo para a administração de medicamentos. Algo curioso que vale a partilha é que análises biomoleculares recentes em ânphoras encontradas na tumba do faraó Escorpião I (datada 3150 a.C.) revelaram a presença de vinho misturados com ervas medicinais, como bálsamo, menta, coentro, sálvia e resina de pinheiro. Este dado evidencia que esta antiga civilização já reconhecia as propriedades solventes e conservantes do álcool contido no vinho, utilizando-o para extrair e potenciar os princípios ativos das plantas. Outro exemplo foi demonstrado pelo “papiro Ebers” em que o vinho tanto surge como um aperitivo, para abrir o apetite ao paciente, como um anti-helmíntico

Em meu livro Vinho Viagem Cultural cito que os médicos gregos foram um dos primeiros a prescrever o vinho como medicamento, incluindo Hipocrátes (460–377 a.C.), considerado o pai da medicina, e que proferiu há mais de 2400 anos, a célebre frase “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja o seu remédio.”, deixando várias recomendações sobre a prescrição de vinho. Pensa-se que, nesta época, o grau alcoólico seria elevado, pelo que o vinho era utilizado para curar ferimentos ou febres, para facilitar a convalescência, como um antisséptico, analgésico, diurético, tônico e até digestivo. Tendo assim um enorme leque de utilizações para as mais diferentes patologias humanas. Você leitor pode conferir mais detalhes das prescrições gregas sobre o consumo de vinho em meu livro, fica o convite a conferir estas informações preciosas. Mas apesar disto os gregos de modo geral, tinham um pensamento negativo sobre o consumo excessivo de álcool, já que o vinho era tido por eles como um símbolo de civilidade.

Já no Império Romano, o mais importante propagador da cultura vínica do mundo, a influência médica do vinho expandiu-se. Os médicos romanos como Galeno, recomendavam diferentes tipos de vinho para condições específicas, e a bebida era frequentemente utilizada para purificar a água, que era trivial estar contaminada por microorganismos patógenos. Esta prática de diluir vinho na água para a tornar potável perdurou até à Idade Média, onde os mosteiros desempenharam um papel fundamental na construção e preservação do conhecimento vitivinícola e medicinal.

A transição da utilização do vinho e dos seus benefícios de forma empírica se deu com a identificação dos seus compostos bioativos. A bebida alimentar vinho, especialmente o tinto e brancos vinificados a moda antiga é uma matriz química complexa e que contém centenas de substâncias, sendo o grupo dos polifenóis os principais responsáveis pelos efeitos positivos na saúde. Esses polifenóis estão em concentrações mais altas no vinho tinto e brancos vinificados a moda antiga porque o processo de fermentação mantém as películas da uva em contato com o mostro por mais tempo. Dentro do vinho eles podem ser didadicamente divididos em duas principais categorias: Flavonoides e Não-Flavonoides.

Na categoria dos Flavonoides estão a Quercetina, Catequinas, Antocianinas e os Taninos, estes estão presentes nas películas e nas sementes. Suas principais propriedades são antioxidantes onde neutralizam os radicais livres e protegem as células do dano oxidativo, são responsáveis pela cor e adstringência, inibem a oxidação do colesterol LDL.

Já os Não-Flavonoides estão o famoso Resveratrol e os Ácidos Fenólicos, presentes nas películas e que apresentam ação anti-inflamatória, cardiovascular, ativador de genes de longevidade (sirtuínas).

O interesse científico moderno pelo vinho ganhou força global a partir do estudo que ficou conhecido como “Paradoxo Francês” de 1979, onde várias populações foram avaliadas por um período de dez anos com o objetivo de estudar a presença de doenças cardiovasculares em populações com diferentes hábitos de vida e alimentares. E a partir dos dados os pesquisadores se surpreenderam com os resultados dos franceses, que mesmo tendo como hábitos de consumo de gorduras saturadas como queijo, leite, manteiga e carboidratos, juntamente com a alta prevalência de tabagismo registrou-se um menor índice de mortes por infarto do miocárdio. Um cientista francês em entrevista forneceu uma explicação para o tal paradoxo, indicando que a dieta francesa incluía classicamente a ingestão de vinho as refeições, e em 1992 publicou na revista científica “Lancet“, um estudo explicando o fenômeno protetor.

3.1 Benefício no Sistema Cardiovascular

Um estudo robusto realizado por investigadores da Universidade de Barcelona foi publicado em 2024 no European Heart Journal, concluiu que o consumo leve a moderado de vinho está associado a menor risco de complicações cardiovasculares. Este foi realizado com 1232 pacientes do projeto PREDIMED, um grande estudo epidemiológico sobre os efeitos da dieta mediterrânea na saúde cardiovascular, nele foi utilizado ácido tartárico como biomarcador e foi confirmado os efeitos benéficos associados ao consumo leve a moderado de vinho sobre o risco de doenças cardiovasculares, medido por um desfecho combinado de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e mortalidade cardíaca. 

Estudos tem demonstrado os efeitos cardioprotetores como melhoria do perfil lipídico, aumentando o bom colesterol HDL e previnem a oxidação do mau colesterol LDL, algo crucial na formação de placas de ateroscleroses. Também estudos evidenciam a ação antiagregante plaquetária, onde o vinho reduz a agregação de placas sanguíneas, diminuindo o risco de formação de coágulos “trombos”que podem causar infartos ou acidentes vasculares cerebrais. Já na função endotelial os polifenóis demonstram promoverem a liberação de óxido nítrico, uma molécula que induz a vasodilatação, ajudando a manter a pressão arterial controlada e melhorando o fluxo sanguíneo.

3.2 Benefício na Neurologia

O stress oxidativo e a inflamação são fatores centrais no desenvolvimento de doenças neurodegenerativas. O Resveratrol presente no vinho é um antioxidante reconhecido que pode modular a desregulação de íons metálicos e características-chave do cérebro com doença de Alzheimer. Este bioativo demonstrou capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, o que pode proteger as células cerebrais de danos contribuindo para a prevenção de doenças como Alzheimer e Parkinson. Há diversos estudos que sugerem que o Resveratrol possui propriedades neuroprotetoras, ajudando a preservar a função cognitiva. O consumo moderado tem sido associado a um menor risco de desenvolvimento de doença de Alzheimer e demências, uma vez que os polifenóis ajudam a proteger os neurônios contra danos e a inibir a formação de placas beta-amiloides no cérebro. Os efeitos dos polifenóis do vinho mediados pelo microbioma oral e intestinal são considerados um dos maiores desafios recentes no campo das doenças neurodegenerativas, como uma estratégia promissora para prevenir ou retardar a progressão do Alzheimer. 

3.3 Benefício na Oncologia

O Resveratrol tem sido amplamente estudado por suas propriedades anticancerígenas. Pesquisas tem demonstrado que a molécula pode ajudar a destruir células anormais que levam ao câncer, particularmente no câncer de intestino. Um estudo do Instituto Gustave Roussy, na França, descobriu que o Resveratrol combinado com aspirina pode reduzir a sobrevivência de células tetraploides em culturas tumorais de câncer de intestino humano, destruindo células que causam instabilidade genética. Cientistas da Universidade Médica de Dalian, na China, também sugeriram que o resveratrol pode retardar o crescimento do câncer. 

Embora o álcool seja um fator de risco conhecido para o câncer, os polifenóis do vinho, paradoxalmente, demonstram propriedades anticancerígenas em estudos in vitro. O resveratrol tem a capacidade de interferir em várias fases da carcinogênese (iniciação, promoção e progressão), induzindo a apoptose (morte celular programada) em células tumorais e inibindo a angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos que alimentam o tumor). Contudo, é crucial notar que estes benefícios são anulados se o consumo de álcool for excessivo.

3. 4 Benefício no Metabolismo e Microbiota Intestinal

Recentes descobertas destacaram o impacto do consumo de vinho na microbiota intestinal. O vinho contém uma rica variedade de polifenóis, ácidos orgânicos e oligossacarídeos, que podem interagir com a microbiota intestinal, alterando as comunidades microbianas e promovendo o metabolismo de compostos derivados do vinho em uma diversidade de xenometabólitos, que são metabólitos produzidos por microorganismo com efeitos locais e sistêmicos no organismo hospedeiro. 

Um estudo conduzido pelo Instituto do Coração (InCor) no Brasil demonstrou que o consumo moderado de vinho tinto, equivalente a uma taça por dia durante três semanas, promoveu um equilíbrio positivo na flora intestinal, aumentando a presença de bactérias benéficas essenciais para a digestão e produção de metabólitos saudáveis.

3.5 Benefício Sobre a Diabetes e Sensibilidade à Insulina

Alguns estudos tem observado que a ação do Resveratrol na melhora a sensibilidade à insulina, auxiliando na regulação dos níveis de glicose no sangue e reduzindo o risco de diabetes tipo 2, melhorando o controle glicêmico em determinados grupos e menor incidência de diabetes tipo 2 em padrões de consumo moderado. Mas entretanto neste caso tem sido difícil separar o efeito do vinho do efeito global de estilo de vida mais saudável.

Muitas são as evidências que corroboram que a ingesta de vinho de forma moderada no cotidiano é um agregador a saúde humana, mas talvez o dado mais interessante seja que os possíveis benefícios do vinho aparecem pareados quando estar inserido em um padrão alimentar mais amplo, ao qual existem imensas pesquisas que é a dieta mediterrânea. Nela o azeite extra virgem, frutas e vegetais típicos da região, leguminosas e peixes vindos diariamente do mar, aliam-se com a prática de atividade física e o convívio social. As Blue Zones conhecidas pelos índices de longevidade acima da média mundial, evidenciam que não é um fator só que contribui em viver mais e melhor e sim o conjunto do estilo de vida nestas mais diferentes zonas do globo e também na região mediterrânea, e todas com hábitos alimentares que diferem-se, mas é possível observar o padrão de um conjunto de fatores que favorecem a alegria de viver, sem tanto stress e como um propósito de vida.

Mesmo ressaltando tantos estudos e comprovações sobre os benefícios do consumo de forma moderada do vinho, a própria ciência não é unânime e há quem generalize como a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) e coloque no mesmo balaio o vinho e outras bebidas destiladas como por exemplo a Vodka. Importante deixar registrado que a ciência moderna tem vindo a validar muitas das práticas empíricas e intuitivas das civilizações antigas sobre o alimento e medicamento milenar vinho. Ele possui uma matriz composta por milhares de compostos de origem vegetal e também os que são formados a partir da fermentação, portanto caro leitor, o vinho nunca pode ser comparado a estas bebidas que de fato “só possuem álcool”.

A presença de compostos bioativos, nomeadamente o Resveratrol e outros polifenóis, confere ao vinho propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, proteção contra doenças cardiovasculares notáveis, potenciais benefícios neurológicos e metabólicos. O vinho desde a antiguidade destaca-se como um elemento singular na dieta humana, especialmente quando integrado em padrões alimentares saudáveis, como a Dieta Mediterrânica, onde não só devemos ter hábitos moderados de ingesta alimentar, mas sobretudo observar e cuidar do nosso estilo de vida com melhores escolhas para a saúde do corpo e sobretudo da mente.

Desejo que este compilado de informações partilhadas aqui neste artigo possa contribuir com o seu melhor entendimento sobre o papel terapêutico do vinho, não só pelos seus bioativos, mais também como um agregador social de convívio, e que faz parte da cultura, história e economia de tantas regiões vitivinícolas pelo mundo.

Saudações báquicas, boas provas e saúde!

Nenhuma outra bebida passou na cronologia da história humana sendo símbolo de status social, civilidade, longa vida, saúde e proporcionando socialização. Exaltada pelas mais célebres personalidades, cruzando as mais importantes civilizações. Este néctar sagrado foi representado em objetos de artes nos mais diferentes períodos e carrega uma riqueza de conhecimentos multidisciplinares. Na época contemporânea, as moléculas presentes em sua composição foram devidamente identificadas e a ciência comprova o que os antigos já sabiam, os seus inúmeros benefícios a saúde humana quando consumido de forma moderada e frequente. Conheça as páginas deste livro que convida a uma verdadeira Viagem Cultural. Adquira já o seu exemplar clicando na imagem.
Baco Valley é o canal dedicado à cultura do vinho, explorando-o como patrimônio cultural da humanidade. Fundado e apresentado por Dayane Casal (@dayanecasal), comunicadora e expert em cultura vínica, o canal partilha conhecimentos, contextos históricos e visão contemporânea do universo do vinho.

Algumas Referências Para o Texto

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Buljeta, I., et al. (2023 ). Beneficial Effects of Red Wine Polyphenols on Human Health: Comprehensive Review. Current Issues in Molecular Biology. Disponível em:

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 InCor. Efeito protetor do vinho sobre o coração. Disponível em:

Lucerón-Lucas-Torres, M., et al. (2023 ). Association between Wine Consumption with Cardiovascular Disease and Cardiovascular Mortality: A Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrients. Disponível em:

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Souza, G. N. B., & Ferreira, J. C. S. (2022 ). Efeitos do resveratrol nas células cancerígenas. Research, Society and Development. Disponível em:

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G1. (2023 ). Faz bem tomar vinho? Entenda como a bebida pode ajudar as bactérias do bem que temos no intestino. Disponível em:

Fonte:

Mundo de Baco por Dayane Casal