Nos últimos dias, cinquenta dos produtores de vinhos mais prestigiados da América do Sul estiveram circulando pelo Brasil, com paradas em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O motivo: o lançamento da 28ª edição do Guia Descorchados, criado pelo crítico chileno Patricio Tapia. Essa publicação é hoje a principal bússola para quem quer entender o que de melhor se produz no continente. Falei sobre o lançamento em uma edição recente do programa Giro, da TV VEJA+:
Entre cerca de 4.000 rótulos degustados, apenas dois alcançaram a pontuação máxima — e ambos argentinos, ambos Malbec, ambos safra 2023. O Adrianna Vineyard Mundus Bacillus Terrae, da Catena Zapata, e o Finca Piedra Infinita Gravascal, da Zuccardi, confirmam não apenas a hegemonia argentina, mas uma tendência clara: nenhum dos dois passa por madeira.
Sim, os 100 pontos agora têm mais frescor do que carvalho — e menos maquiagem. Estrutura há, mas com acidez vibrante e fruta em primeiro plano. Um estilo que diz muito sobre para onde caminha o gosto contemporâneo. No Brasil, essas garrafas chegam pelas importadoras Mistral e Grand Cru, com preços na casa dos R$ 3.500.
Se no topo o discurso é de pureza, na base da pirâmide o movimento é de expansão — e, desta vez, com sotaque brasileiro fora do eixo tradicional. Pela primeira vez em cerca de dezessete anos, Tapia não visitou o Sul do país, concentrando-se no Sudeste e na já consolidada técnica da dupla poda, que inverte o ciclo da videira para colher no inverno.
O resultado começa a aparecer com consistência — e até surpresa. Entre os tintos brasileiros mais bem pontuados, dois dividiram o pódio com 94 pontos: o Rastros do Pampa, um Tannat leve da Guatambu, na Campanha Gaúcha, e o Paralelas, um Cabernet Franc da Casa Almeida Barreto, de Minas Gerais, eleita vinícola revelação.
Na masterclass que abriu o evento em São Paulo, Tapia admitiu ter revisto seus próprios preconceitos. A qualidade da produção paulista e mineira surpreendeu — ainda que com ressalvas. Uma delas é a falta de identidade. “Não é um problema da técnica, mas de quem faz os vinhos”, disse, referindo-se à concentração de poucos enólogos à frente de muitos projetos.
Entre eles está o chileno Cristian Sepúlveda, nome-chave no desenvolvimento da Guaspari, em Espírito Santo do Pinhal. Segundo Tapia, seu estilo — antes mais marcado pela extração — vem ganhando delicadeza. “Hoje vejo vinhos mais sutis, mais interessantes”, afirmou. Ainda assim, a região pede diversidade: mais mãos, mais visões, mais identidade.
No fim, o Descorchados continua fazendo o que poucos guias conseguem: não apenas apontar os melhores vinhos, mas revelar — safra após safra — para onde o vinho sul-americano está indo. E, desta vez, ele parece caminhar menos pelo peso e mais pela precisão.
Confira abaixo os grandes destaques do ano:

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