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O vinho sem álcool está evoluindo? Durante décadas, a categoria ocupou um espaço desconfortável, muitas vezes descartado como uma bebida para crianças em ocasiões especiais ou visto como um compromisso, e não como uma escolha. O Janeiro Seco ou Dry January acabou sendo sua campanha de marketing mais eficaz.
Mas isso está mudando rapidamente. As vendas de vinho tradicional estão em queda, enquanto o setor de vinhos sem álcool cresce de forma acelerada.
O que mudou? Em primeiro lugar, os vinhos sem álcool modernos melhoraram significativamente, refletindo uma gama crescente de abordagens técnicas, intenções estilísticas e motivações culturais, muitas delas lideradas por enólogos sérios que enxergam o vinho como algo maior do que apenas álcool.
No início de janeiro de 2026, o mercado de vinhos sem álcool registrava alta de 29,1%, enquanto o mercado geral de vinhos apresentava queda de 4,9%.
NielsenIQ (“NIQ”) – Beverage Alcohol Year in Review 2025
Empresas como a ALTR estão avançando tanto na tecnologia de remoção de álcool do vinho quanto na forma de pensar o teor alcoólico (ABV), oferecendo mais opções aos consumidores. No caso da ALTR, o vinho passa por uma membrana que preserva todas as suas características, exceto o álcool, permitindo a produção de uma gama de níveis de ABV, tanto zero álcool quanto baixo teor alcoólico. Esse é apenas um dos métodos usados para produzir vinhos sem álcool.

Os Diferentes Estilos de Vinho Sem Álcool
Muitas pessoas desconhecem a importância da linguagem em torno do vinho sem álcool. O termo “vinho sem álcool” tornou-se um guarda-chuva que abrange estilos fundamentalmente diferentes:
- Vinhos nunca totalmente fermentados, que utilizam mosto de uva ou verjus e, em alguns casos, botânicos para construir estrutura e sabor.
- Vinhos parcialmente fermentados, nos quais uma quantidade limitada de álcool se forma antes de a fermentação ser interrompida.
- Vinhos desalcoolizados, que começam como vinhos totalmente fermentados e depois têm o álcool removido por técnicas como destilação a vácuo, osmose reversa ou tecnologia de cone giratório (spinning cone).
Cada abordagem oferece vantagens distintas. Vinhos não fermentados e aqueles impulsionados por botânicos permitem aos produtores moldar o sabor com precisão, muitas vezes resultando em rótulos expressivos e gastronômicos que se afastam das expectativas tradicionais do vinho.
Já os vinhos parcialmente fermentados podem preservar aromas frescos e a doçura natural da uva, evitando perdas estruturais que às vezes ocorrem durante a remoção do álcool. Esses estilos costumam ser vibrantes e acessíveis, ideais para momentos de aperitivo e pratos mais leves.
Os vinhos desalcoolizados, por sua vez, têm outra grande força: eles começam como vinho de verdade. Como a fermentação já criou textura, acidez e complexidade fenólica, a remoção cuidadosa do álcool pode manter grande parte da arquitetura original do vinho — especialmente quando o vinho-base é bem escolhido.
Vinhos Sem Álcool para Experimentar
No Chile, o Serena Mode 0.0, produzido pela Miguel Torres Chile, utiliza a tecnologia de cone giratório para preservar o caráter varietal, resultando em Sauvignon Blanc e Rosé aromáticos, refrescantes e claramente vínicos.

Na Nova Zelândia, o Giesen 0% segue uma filosofia semelhante, começando com vinhos-base de alta qualidade antes de remover o álcool de forma delicada, mantendo equilíbrio e frescor — especialmente em seus estilos levemente frisantes, pensados para ocasiões sociais.

Produtores da Califórnia também estão se aproximando dessa categoria. Missing Thorn, cocriado por Aaron Pott e Stephanie Honig, utiliza o mesmo processo meticuloso que Pott aplica em seus premiados vinhos do Napa Valley e, em seguida, emprega uma técnica inovadora de destilação suave para remover o álcool, preservando 100% dos aromas e sabores naturais. Aromas naturais são adicionados com cuidado para complementar e realçar o perfil existente do vinho.

A Tomorrow Cellars produz um Petite Sirah com notas de amora, cassis e especiarias quentes, enquanto o Rhône Blanc apresenta pera madura, madressilva e raspas de limão. O Sparkling Blanc de Rhône se destaca, com notas de jasmim e final de grapefruit.

Esses vinhos não tentam reproduzir o álcool; em vez disso, buscam recriar a profundidade e o ritmo do vinho sem depender do etanol.
Alemanha Ocupa Um Lugar de Destaque no Universo do Vinho Sem Álcool
“Produtores alemães são inovadores nesse espaço há muito tempo, experimentando e aprimorando técnicas de desalcoolização há mais de um século.”
Jenna Fields, presidente da The German Wine Collection
Muito antes do vinho sem álcool se tornar uma tendência moderna, produtores alemães já experimentavam vinhos de baixo teor alcoólico e sem álcool. Essa história se traduziu em liderança técnica nos dias de hoje. O clima também desempenha um papel importante. Os vinhedos de clima frio da Alemanha produzem naturalmente vinhos com menor teor alcoólico e alta acidez, características que funcionam muito bem após a remoção do álcool.

A Leitz foi uma das primeiras a demonstrar que vinhos sem álcool podem manter frescor e clareza varietal sem cair na doçura excessiva. Elaborado a partir de Pinot Noir, o Leitz Eins Zwei Zero Rosé entrega frutas vermelhas vibrantes, morango, melancia e cereja, sustentadas por acidez viva e mineralidade enxuta.

De uma das mais respeitadas casas de Riesling da Alemanha, a Loosen Brothers, o Dr. Lo começa como um Riesling do Mosel tradicionalmente fermentado antes de passar por uma destilação a vácuo suave. O Riesling se adapta especialmente bem à desalcoolização, o resultado preserva a mineralidade de ardósia, a acidez cortante e a tensão entre frutas cítricas e de caroço, marcas registradas da região.
“Para nós, o Riesling é uma escolha ideal para vinhos sem álcool. A frutuosidade natural e a suculência da uva o tornam muito saboroso, mesmo sem álcool. E aqui no Mosel temos a vantagem de vinhos naturalmente com baixo teor alcoólico, o que permite um processo de remoção mais suave.”
Ernst Loosen, Loosen Bros.
Outros excelentes vinhos sem álcool da Alemanha incluem o Alkoholfrei Müller-Thurgau e a linha Zerozzante da Raumland, com espumantes altamente bem avaliados.
E Os Vinhos Sem Álcool do Brasil?
A tendência dos vinhos sem álcool não se limita ao cenário internacional, mas também tem sido notada no mercado nacional. A marca espanhola Freixenet no Brasil, por exemplo, figura como o rótulo mais bem avaliado da categoria de acordo com a My Best Brasil, plataforma que realiza comparativos e rankings de produtos em diversas áreas. Os espumantes sem álcool da Freixenet são desalcoolizados, preservando suas características originais.
Já na produção nacional, a Cooperativa Vinícola Garibaldi, no sul do país, apresenta frisante livre de álcool brasileiro, o Relax Alcohol Free. A bebida é elaborada com uva Moscato – mesmo varietal presente na produção dos Moscatéis da marca. Outros exemplos de fabricação brasileira são os vinhos da Aurora e La Dorni.
Outra novidade no mercado é o Shantori, o primeiro espumante não alcoólico à base de chás do Brasil. A bebida é feita com Pai Mu Tan, um chá branco milenar chinês, e possui rosas e um toque cítrico de laranja.
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