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Tem até estrada sob medida para Porsche na região vinícola entre SP e MG

A exuberante natureza da bucólica Serra da Mantiqueira sempre atraiu muitos visitantes, que vão para lá em busca de suas cachoeiras e picos com mais de 2 000 metros de altura. Agora, a recomendação é seguir para lá com uma taça de vinho na mão, pronta para ser enchida com as ótimas bebidas produzidas pelas vinícolas da região. O local vem se tornando um rota em ascensão dentro do enoturismo brasileiro. O epicentro dessa movimentação ocorre em um caminho entre pequenos municípios de São Paulo e Minas Gerais. Guarde o nome da estrada: Olavo de Almeida. Em 36 km e 37 minutos você sai de Espírito Santo do Pinhal (SP) e chega a Jacutinga (MG) passando, nos primeiros 10 km, por sete vinícolas. “Em poucos anos, essa vai ser uma das principais rotas de enoturismo do Brasil”, prevê Aline Mabel, CEO da Rio Manso, projeto que já nasce gigante na redondeza.

A região é o berço da dupla poda, o manejo que inverte o ciclo da videira para que a colheita seja feita entre junho e agosto, quando chove menos. Assim, ela tornou possível produzir vinho em climas tropicais. Uma das pioneiras no uso da dupla poda, a Guaspari, virou cartaz internacional e ajudou a transformar uma cidade historicamente cafeeira, Santo Antonio do Pinhal, em destino vitivinícola. “Estamos vivendo o renascimento de uma região que já foi protagonista no cenário nacional”, diz Dudu Cirvidiu, um dos sócios da Rio Manso.

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A Rio Manso: destaque entre os novos projetos da áreaVersa Agência/VEJA

Se o renascimento foi o movimento que marcou a transição da Idade Média para Moderna, cultural, artística e cientificamente, a mesma expressão pode ser usada para classificar o que anda acontecendo na região quando se fala na revolução em curso na produção de vinhos e nos investimentos em turismo. Nos últimos cinco anos, um boom de projetos instalou-se ali. “Hoje, em um raio de 100 km temos 100 vinícolas, entre os municípios da área, como Santo Antônio do Jardim, Pinhal, Jacutinga, Albertina e Andradas”, afirma Aline, que é também diretora da Aprovin (Associação Nacional de Produtores de Vinhos e Inverno).

Essa quantidade de propriedades trabalhando a todo vapor vai gerar também uma enorme quantidade de produtos. “A expectativa é produzir em torno de 1 milhão de garrafas em 2026”, diz Célia Pinotti Carborari, presidente da Câmara Setorial de Viticultura de SP. A pergunta óbvia: quem vai beber tudo isso?

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A resposta: boa parte disso vai ser bebida pelos visitantes dessas vinícolas. O enoturismo será o grande chamariz. Piqueniques entre parreirais, almoços harmonizados com vista, jantares com chef — é a experiência que justificará a venda de garrafas que custam cerca de R$200 e R$300. “Quando você transforma a compra em vivência, vence a barreira do preço”, diz Felipe Galtaroça, da Ideal.BI, consultoria especializada no mercado de vinhos. Para ele, esse sem dúvida é um dos maiores benefícios que o vinho paulista tem oferecido ao jovem setor vitivinícola brasileiro. “O Sudeste está agregando valor ao vinho, melhor posicionando as marcas nacionais, o que pode inclusive favorecer os vinho do Sul”, comenta.

ALTO PADRÃO

Outro ponto importante nessa movimentação: como poucos desses vinhos estarão disponíveis em gôndolas de mercados, o consumidor não deve priorizar a comparação desses valores com os de outros vinhos de mercados mais tradicionais como Portugal ou Itália. “Você faz um brinde debaixo de uma vinha, depois tem um almoço delicioso com vista para o vale, sentado numa cadeira de design contemporâneo e esse vinho será melhor do que qualquer Barolo ou Chateâu”, entende Felipe, com uma dose de exagero. “A percepção de valor não é só técnica”, completa o especialista.

Atentos a esse movimento, a Rio Manso já nasce com uma estrutura de enoturismo de alto padrão. Nos 82 hectares, haverá restaurante de alta gastronomia brasileira, 36 quartos com vista para o vale, um altar entre as vinhas Syrah e Viognier para casamentos e um calendário de experiências que vão de yoga nas vinhas, corridas e passeio de bike. Está previsto até o calçamento sob medida para Porsches chegarem aos 1.500 m de altitude, onde estão as vinhas de Pinot Noir — afinal, enoturismo hoje pede bom gosto e nenhum arranhão na suspensão de bólidos desse quilate.

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Projeção em computador do projeto da Rio Manso: inauguração prevista para o segundo semestreDivulgação/VEJA

Tudo deve ficar pronto no segundo semestre, com um investimento de 20 milhões de reais (só a estrada das Porsches vai custar 1,5 milhão de reais). Victor Hugo Moranza, um dos sócios, que é um executivo experimentado no varejo (sua família tem uma rede de mercados da região de Campinas), conta que, quando compraram a terra em 2019, não imaginavam que o retorno fosse ser tão rápido. “A proximidade com o consumidor é impressionante, já tivemos até que tirar placa da vinícola enquanto estamos em obras porque as pessoas entravam para procurar vinho” conta. Foi ele quem convenceu os outros três sócios, todos empresários com menos de 50 anos e que nunca haviam trabalhado com vinho, na aventura de serem donos de vinícola.

Os vinhos da Rio Manso parecem a versão atualizada dos vinhos de dupla poda. A catarinense Aline Mabel trabalhou bons anos na premiada Cave Geisse, responsável pelos mais famosos espumantes brasileiros, antes de chegar ao Sudeste onde passou um tempo com Murillo Regina, o engenheiro agrônomo que usou a técnica da dupla poda nas videiras e começou toda essa revolução, há cerca de 25 anos. Se antes os vinhos eram mais pesados e muito parecidos entre si, os da Rio Manso têm autenticidade e frescor.

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Fiquei bastante impressionada com o rosé chamado Dança do Tangará, um corte de Pinot Noir, Syrah e Chardonnay, que deve custar cerca de R$ 100. Também me chamou atenção o belíssimo Olhar da Onça, que agrega às tintas Syrah e Cabernet Franc uma porção da branca Viognier, com passagem de 12 meses em barricas francesas, que não roubam o aroma nem o sabor da fruta. O vinho deve custar R$ 220 e pode ser comprado na vinícola que tem abertura prevista para o segundo semestre. Quem não quiser esperar até lá, pode adquirir as garrafas a partir de maio pelo site da Rio Manso.

Se a Olavo de Almeida ainda parece uma estrada fora do mapa, não será assim por muito tempo: em poucos anos ela pode ser não apenas a rota do vinho. Vai ser também a rota para passar a noite, casar entre Syrah e Viognier e voltar para casa com a mala cheinha — quem lembra da conta do cartão de crédito numa hora dessas, não é?

Empresas como a Rio Manso não estão apenas plantando vinhas — estão plantando uma nova experiência. O vinho do Sudeste investe pesado para transformar uva em destino.

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Fonte:

Vinho – VEJA