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Os ventos do acaso que colocaram o Uruguai no mapa mundial do vinho

As charmosas praias de Punta Del Este começaram a atrair nas últimas décadas personalidades como Mark Zuckerberg, Leonardo DiCaprio e Shakira. A 65 quilômetros dali, ao redor do pequeno povoado Garzón, no alto de um cerro, não havia nada capaz de atrair qualquer tipo de visitantes. Pudera. O local tinha palmeiras, o horizonte —  e mais nada. O cenário começou a mudar a partir do momento em que o magnata do petróleo Alejandro Bulgheroni comprou 2.200 hectares na região com a intenção de criar um parque eólico.

Só que havia um negócio ainda melhor escondido na propriedade. Ele foi revelado quando o empresário convidou o enólogo italiano Alberto Antonini para conhecer o terreno. Esse especialista mostrou ao dono da terra o potencial do lugar para a produção de vinhos e, assim, quase por acaso, nasceu a Garzón. Ela se tornou a 14ª vinícola no portfólio de Bulgheroni ao redor do mundo (ele tem sete na Toscana e o restante delas entre Argentina e Austrália). O Uruguai também lucrou muito com a descoberta. Esse negócio foi o responsável por colocar o país no mapa mundial do vinho.

A Garzón começou a produzir nos anos 2000 e, em 2016, com a chegada do chileno Christian Wyle (atual CEO da Garzón), deu o passo definitivo para a fama internacional, passando a trabalhar em um vinho que pudesse entrar na Place de Bordeaux, onde há 700 anos são negociados os vinhos mais desejados do mundo, um passaporte para a notoriedade e com ela o sucesso comercial. Foi assim que em 2017, surgiu o Balasto. O elegante blend de Tannat, Cabernet Franc e pequenas porções de Petit Verdot e Marselan conquistou a Place de Bordeaux e ganhou as manchetes do jornal francês Le Figaro (falarei mais sobre esse vinho na próxima coluna). Outro produto de sucesso foi o Tannat Reserva 2015, mais fluido e fácil de beber, vinificado em tulipas de cimento, onde originalmente se produz vinho branco, foi eleito entre os 100 Melhores Vinhos do Mundos pelo Wine Spectator Em questão de dias, os pedidos para os Estados Unidos passaram de 100 para 6.000 caixas por ano.

Divulgação
Francis Mallmann, Bettina Bulgheroni, Alberto Antonini (enólogo italiano) e Alejandro BulgheroniDivulgação/VEJA

A fama desses e de outros vinhos da Garzón já levou para lá Gwyneth Paltrow, fã declarada do rosé da casa. George Clooney também visitou o local, ocupando um dos onze quartos reservados pela vinícola no povoado, que já esteve estampando do Huffighton Post como sinônimo qualidade de vida. Alegra Antinori, a 28ª geração da família que produz o íconico Tignanello, foi vista entre os vinhedos observando o negócio. Outra arma nada secreta da Garzón é o chef do fogo, o argentino Francis Mallman, que está no projeto desde a primeira colheita e é, além do vinho, a grande atração da vinícola nas festas de colheita. Mallmann tem uma casa ali na região, para onde se recolhe depois de suas aparições nesses eventos badalados.

O foco dos investimentos agora está sendo direcionado para o enoturismo, incrementando o luxo da experiência de visitar o local. Em 2028 está prevista a inauguração de 25 quartos de alto padrão para hospedar as pessoas dentro da vinícola, num espaço que contará com aeroporto particular, spa e tudo que o dinheiro e o bom gosto podem comprar. Mais adiante, deve surgir um hotel 4 estrelas, mais próximo do povoado, com 100 quartos, para atender em sua maioria brasileiros que costumam fazer o roteiro de inverno em Gramado e querem dar uma esticadinha no Uruguai para tomar bons vinhos e sentir a brisa do Atlântico, que traz frescor e elegância aos vinhos da Garzón.

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Fonte:

Vinho – VEJA