Há famílias que herdam casa de praia; outras, prataria. Os Lançon receberam um vinhedo na Châteauneuf-du-Pape, nome que qualquer curioso por vinho reconhece antes mesmo de saber para onde apontar no mapa. Trata-se de uma das mais antigas denominações de origem da França. A AOC (Appellation d’Origine Contrôlée) foi criada em 1936, mas sua história começa bem antes, quando os papas trocaram Roma por Avignon (1309–1377) e decidiram que, para aguentar o verão provençal, precisavam de um “castelo novo” cercado de vinhas. Châteauneuf-du-Pape só existe porque, um dia, os papas resolveram beber bem.
Sorte de Florent Lançon, oitava geração à frente do Domaine de La Solitude, uma das propriedades mais tradicionais entre as cerca de 320 vinícolas da AOC. A família descende dos Barberini, a mesma linhagem do papa Urbano VIII, e a história da casa se confunde com a do antigo reino papal de Avignon. Florent Lançon esteve pela primeira vez no Brasil na semana passada e ficou encantado com a gastronomia de São Paulo.
Antes de assumir a vinícola, ele fez o que recomenda a todo jovem: “no fim dos estudos, vá o mais longe de casa que puder”. Lançon estudou enologia em Montpellier, trabalhou na Austrália e na Nova Zelândia “para aprender inglês e beber vinho” e só então voltou para a casa onde moravam seus tataravós. Queria ser professor universitário, chegou a iniciar um doutorado em florestas tropicais, mas mudou de rota quando o avô morreu e ninguém podia assumir a vinícola. “Eu disse: assumo, mas vamos mudar o jeito de trabalhar”. Não mudou o estilo do rótulo. Mudou a forma de cultivar o solo.
Orgânico e regenerativo
Florent levou para aquele mar de “galets roulés” (as pedras arredondadas tão características que cobrem o chão) um vocabulário que, há 30 anos, pareceria blasfêmia: orgânico, energia sustentável, biodiversidade, agricultura regenerativa. O Domaine de La Solitude hoje planta árvores entre as vinhas, semeia outras espécies e usa ovelhas como roçadeiras que adubam o campo. “Se queremos que o negócio fique na família, temos que respeitar a terra. A tradição começa aí”, explica.
Atualmente produzem cerca de 500 mil garrafas por ano. Não é boutique, nem gigante – e isso é cálculo. “Eu não quero ser a camisa feita por máquina. Quero ser alfaiataria”, diz. Crescer demais dilui identidade; encolher demais tira relevância. A equação de distribuição é delicada: 70% são exportados, com 30% ficando na França, 20% no resto da Europa e 50% fora do continente – Canadá, Estados Unidos (seu maior mercado, com 20% da produção), Ásia inteira e, sim, um 1% já desembarcando no Brasil, pelas mãos da importadora Zahil.
Conheci quatro rótulos em um jantar promovido pela importadora no Bistrot Du Quartier, em São Paulo. São encorpados, bem estruturados, mas com taninos muito elegantes. Apesar de não serem vinhos leves, são fáceis de beber e estão prontos, não precisam de horas abertas, dias no decanter, anos de adega. Todo esse legado engarrafado tem custo. O Tradition – Châteauneuf-du-Pape Rouge custa R$923 e o Famille Lançon Bellecoste – Gigondas Rouge sai por R$634. A maneira mais acessível de entender aquele terroir e estilo são os Côtes du Rhone (branco ou tinto) pelo valor de R$ 245. Os vinhos amadurecem em cimento ou barricas usadas (nada de madeira pronunciada). O resultado é de uma elegância pura.
Nova ordem no velho mundo
Ao contrário de muitas denominações engessadas por percentuais de uvas e regras milimétricas, Châteauneuf desfruta de uma liberdade invejável de corte (o blend das uvas que criam o vinho): o foco é o lugar – o terroir – e o gosto final do vinho, não a receita.
É aí que o “cientista tropical” entra em cena. Em vez de dramatizar o aquecimento global, Florent ajusta o blend. O coração de Châteauneuf é a Grenache, casta que precisa de décadas para mostrar a que veio (a vinha começa a render vinho realmente interessante lá pelos 30 anos) e que, com o calor atual, chega fácil a desconcertantes 16–17% de álcool. Para reequilibrar, ele aumenta a participação de variedades menos alcoólicas, como Cinsault, Counoise, Vaccarèse, e até introduz pequenas quantidades de uvas brancas no vinhedo tinto para trazer frescor e acidez.

Uma vez por ano pratica a velha “complantation”: como cerca de 1% das vinhas morre naturalmente, são substituídas por outras variedades, criando um mosaico vivo de uvas na mesma parcela – o famoso field blend, em que a mistura começa no vinhedo. O estilo, ele garante, permanece fiel ao DNA da casa: “Tudo é questão de equilíbrio – riqueza, taninos, aromas, capacidade de beber jovem e potencial de guarda.” A ideia é simples e ambiciosa: você pode abrir uma garrafa recém-lançada ou 10 anos depois, sem janela “certa” ou “errada”.
O lado B (branco) de Châteauneuf
O tinto é a estrela, mas o branco começa a roubar luz dessa constelação. Apenas 9% da produção de Châteauneuf-du-Pape é de vinhos brancos, que até os anos 2000 ficavam quase todos na França. Florent quer chegar a 30% de brancos e 70% de tintos – não por modismo, mas por leitura de comportamento: menos carne, menos açúcar, pratos com mais acidez, menos tempo de mesa, mais taças “sem comida”. Ele vê aí um terreno fértil para brancos gastronômicos, com caráter.
O problema é que aumentar a produção não é como “plantar batata que se colhe de um ano para o outro”, diz. Vinha leva tempo; o desejo do mercado nem sempre cabe na safra. Por enquanto, a pressão é administrada na diplomacia das alocações: tira um pouco daqui (Japão, Taiwan, que já flertaram com 50% de brancos), manda um pouco mais para lá (Brasil, ainda engatinhando, mas em crescimento). Quanto? “Vocês, na América do Sul, ainda são muito tintos”, provoca.
Num mundo obcecado por vinhos magrinhos, Châteauneuf-du-Pape é o lembrete de que dá para ter corpo sem perder a elegância – desde que quem mande na taça seja o equilíbrio.
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