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Morte por camarão

“Adriaaaaan!….”

A cena do grito de Rocky Balboa após a luta, com olhos e rosto inchados, e a boca meio torta em brado fanho, me veio à mente quando olhei no espelho.

“Andréeeeee!!!!”, gritei o marido por socorro, com a voz curiosamente rouca em momento nada sexy.

Passei férias em Portugal, onde enchi o bucho de gambas, bruxas e outros crustáceos, como se não houvesse amanhã. Afinal, o Inverno é a época ideal para frutos do mar, bem mais gordos, saborosos e doces naquela estação.

Já no Rio, em Verão carnavalesco, saí com o irmão e me atraquei com um plâteau imenso de conchas, mariscos e crustáceos. Algumas horas depois, veio o grito diante do espelho.

Enquanto esticava os braços para a frente, incrédula, via meu corpo se transformar numa espécie de sofá envolvido em plástico bolha – eram muitas, por todo o corpo – enquanto meu marido se comunicava com todos os médicos da lista do celular.

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– O que ela comeu?

– Camarão, polvo, ostra, lagostim, sarnambi…

“A primeira reação é um alerta. A segunda pode ser mais violenta.”, disse um. “Se a parte respiratória piorar, corra para a emergência”, disse outro.

Com uma dose cavalar de anti-alérgicos, um banho gelado e olhar apavorado do marido, que descobriu que havia se casado com um Gremlin, o susto passou aos poucos e o hospital não se fez necessário.

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É possível desenvolver uma alergia depois de uma vida dedicada à tropomiosina? Parece que sim. Nunca tinha ouvido falar da proteína, comum a crustáceos, polvos, caranguejos, conchas e todos os menus do planeta, até 20 dias atrás.

Da manhã seguinte em diante, o alívio pelo fim das bolhas se transformou em pânico. A cada cardápio que abria numa vida dedicada à gula, vinha a terrível constatação de que molhos, farofas, arrozes e outros, poderiam levam cascas de crustáceos escondidas, ainda que o ingrediente não fosse mencionado.

Tentei pensar que camarão é bicho feio. Parece uma barata vermelha e estressada que devia ter asas, mas na falta de jeito, tenta correr pelo fundo do mar com aqueles ‘cambitinhos’ aflitos e apressados e ainda esfrega as patinhas num gesto conspiratório, como as moscas. Eca.

Então lembrei que nunca liguei para aparências e dane-se! Acho todo o amor pelo crustáceo justificável.

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Foram 15 dias em que o sorriso perdeu a força, despencando pelos cantos da boca enquanto, em plena fase de negação, me recusava a fazer o teste e confirmar o meu karma.

Como poderia voltar ao Ocyá, que aproveita tudo do bicho? Que das cascas, faz caldo e um óleo de camarão que usa em emulsões, nas maioneses ou na manteiga que finaliza pratos e pincela o pão de alho? Que da casca seca, defumada e processada faz flocos que salpicam na farofa deliciosa?

Como passar pelo Grado e não comer a massa em ponto perfeito com carabineiros crus, pinguinhos de limão siciliano, em untuoso creme de ouriço que, agora, me faz salivar?

Será que nunca mais poderei pedir o prato de lagostins do Satyricon ou seu imperdível Gran Piatto di Mare, que encanta todos os turistas que levo até lá?

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Como viver sem o acarajé ou vatapá do Sabores de Gabriela, que sempre me fizeram chorar pela pimenta – que adoro – e agora me fazem chorar de saudade?

Como desviar da lembrança do meu pai no Caranguejo, de Copacabana, com as pinças do bicho abertas a marteladas e, em seguida afogadas em limão e chope?

O que fazer se eu esbarrar com o camarão rosa, de carne muito mais doce e delicada, pescado artesanalmente na Laguna de Araruama no menu degustação do Trégua, outra vez?

O que fazer???

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Foi então que, ao avistar um colar na prateleira do meu banheiro, me veio o flashback em câmera lenta: feito de sementes e tecido, estava ali depois de tê-lo encontrado, esquecido e mofado, no fundo do armário. A cena de manusear, esfregar tentando limpar e caminhar pela casa com o colar por alguns minutos, aconteceu ao chegar do jantar naquele dia fatídico.

Só então me veio o clique. E se for alergia a mofo…ofo…ofo????

Sofri muito com ácaros e mofo na infância petropolitana, mas havia décadas que o problema não vinha me “visitar”. Sequer tinha me passado pela cabeça – dada a certeza dos médicos, e talvez um medo gigantesco que carreguei durante toda uma vida dedicada à comida – que fosse algo além de alergia alimentar. Meu coração transbordava de esperança.

Escolhi, naquele instante, um restaurante a dois passos do hospital e, do lado do marido, fiz o tal “teste de provocação”. Pronto. Comi um pedacinho de camarão. Esperei dois, dez, vinte, trinta minutos e nada aconteceu. Comi dois, três, chorei lágrimas salgadas e balofas que, aos pulos, temperavam meu pastel com alegria.

Nesses quinze dias, pensei em todos aqueles que sofrem com intolerâncias ou reações alimentares agudas, e só agora entendi o quanto isso é difícil. Fiz promessa –  nem religiosa sou – e ergui um brinde mental e emocionado a todos que associam comida à morte.

Por fim, lembrei que estamos em pleno defeso até o dia 30 de abril, mas esperemos com calma que agora a vida é outra, bem mais colorida.

Vejo a luz no fim do túnel…. e eu nem precisei morrer.

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Fonte:

Comer & Beber – VEJA RIO