O que poucos sabem é que o poder raramente se manifesta de forma explícita no cenário do cotidiano da humanidade. E isso ocorre porque, na maioria das vezes, ele não precisa de exibição. Ele se reconhece através de símbolos, em rituais, e majoritariamente em gestos sutis. Quem domina a história do vinho sabe que ele no decorrer da sua trajetória, sempre transitou no percurso da diplomacia e até entre os códigos invisíveis do mundo dos negócios, comunicando verdadeiro poder.

Neste artigo partilho alguns exemplos de momentos históricos importantes, onde a presença do vinho marcou a história, abordando alguns códigos intrínsecos da influência do vinho, como verdadeiro código social nos ambientes de negócios e em variadas situações diplomáticas.
1. Na Roma Antiga
Na época da Roma antiga, o vinho foi mais que um símbolo de civilidade, era estratégia de poder e de dominação dos novos territórios, gerando de forma clara o pertencimento das terras com a sua romanização. A cultura vínica implantada na Europa foi uma das mais eficientes e perpétuas ferramentas usadas pelo império romano para impregnar o seu legado. Nesta altura quem não consumia vinho era quase “carimbado” com o marcador de marginalidade cultural. Os banquetes eram espaços de alianças políticas, definição de estratégias e afirmação de status social, portanto determinados vinhos especiais eram servidos nestes momentos.
Nos coliseus romanos onde a barbárie tomava o palco principal juntamente com a estratégia da política do pão e circo, seguiam bem a sua finalidade: entreter o povo, dando-lhes pães e servindo-lhes vinhos de qualidade duvidosa para perderem a lucidez, enquanto as articulações seguiam firmes no alto da cúpula do poder. Ao que parece em pleno século XXI, mudou somente os personagens e as ferramentas, mas a estratégia permanece a mesma.
Outro detalhe importante de salientar é que o vinho não podia ser consumido pelas mulheres, evidenciando como elas eram vistas na sua importância da sociedade romana. O vinho era símbolo de afirmação de poder e as mulheres romanas não podiam pertencer a ele.
2. O Tratado de Methuen
Em 1703 foi assinado o acordo histórico entre Portugal e a Inglaterra, que selava uma das alianças militares e comerciais mais relevantes, onde o vinho estava na mesa de negociação não somente como símbolo de poder, mas ligado diretamente a decisões na geopolítica da época. Este tratado foi negociado pelo diplomata inglês John Methuen. Portugal concedia tratamento preferencial aos tecidos de lã inglesa, já a Inglaterra comprometia-se a importar vinhos portugueses com tarifas inferiores às aplicadas aos vinhos franceses. Em resumo o vinho de Portugal pagaria um terço a menos de imposto do que o vinho francês em território inglês.
O tratado gerou impacto no crescimento das exportações para o mercado britânico, iniciou a forte presença de comerciantes ingleses no Porto, e a consolidação da ligação histórica entre estes países, evidenciado tão claramente até os dias atuais dentro dos negócios que giram com os vinhos do Porto. Há historiadores que criticam o tratado defendendo em seus argumentos que ele contribuiu para a desindustrialização portuguesa e dependência da Inglaterra. Já há outros estudiosos que relativizam apontando que na altura Portugal já tinha fragilidades estruturais.
Mas o objetivo de relembrar este fato histórico da aliança Luso-Britânica é mostrar a dimensão política e estratégica tendo o vinho como protagonista. Portugal buscava proteção militar, já a Inglaterra queria ter acesso privilegiado ao poderoso vinho português e reforçar a sua posição contra a França no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola.
3. A Independência dos Estados Unidos
Em 04 de julho de 1776 Thomas Jefferson proclamou a ruptura formal com a Inglaterra, declarando a independência dos EUA e determinando o princípio de que “todos os homens são criados iguais”, portanto, tendo direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Jefferson foi o terceiro presidente americano, era profundo conhecedor e apreciador dos vinhos europeus, habilidade esta que adquiriu quando atuou como diplomata na França. Nesta altura compreendeu algo estratégico, o vinho como linguagem cultural e símbolo de poder. A importação dos vinhos franceses não era somente luxo, era aproximação simbólica com a Europa de forma ilustrada.
Quem conhece a história deste evento americano que envolveu o vinho, possui a informação de qual o vinho escolhido para o brinde da independência americana, se você não conhece este detalhe, saiba que foi um magnífico vinho português, o Madeira.
Para um grande expert em vinhos e em política a escolha de Jefferson não foi algo trivial. Uma das razões do vinho Madeira ter sido eleito para este evento histórico, era que no século XVIII ele era um dos mais consumidos nas colônias americanas, devido suportar longas distâncias nas viagens marítimas, permanecer estável e resistente ao calor, e por já fazer parte da cultura política na época. Também outra causa da escolha era quererem evidenciar de forma simbólica o anti-britânico, pois o vinho Madeira era importado diretamente da ilha em muitos casos, evitando os pesados impostos aos cofres britânicos. Mas, uma das mais fortes razões dentro do circuito do poder é que grandes decisões e negócios são sempre seladas com grandes vinhos, fato que corrobora o que um bom vinho Madeira transmite até os dias de hoje.
4. O Banquete Real de Windsor (2025)
Em setembro de 2025 Donald Trump fez uma visita diplomática e estratégica de Estado ao Reino Unido, os principais objetivos eram reforçar os laços transatlânticos entre os EUA e os ingleses, avançar em acordos econômicos e comerciais, assinar e discutir pactos estratégicos envoltos da segurança, comércio e tecnologia, face a realidade atual global.
A realeza preparou um enorme banquete seguindo os preceitos de atenção a cada detalhe do que estava na mesa, seguindo a tradição cerimonial impecável britânica. Cada objeto, cada prato elaborado e cada vinho escolhido comunicava algo, e tudo isso no círculo de realezas é uma linguagem silenciosa de poder. O jantar de gala foi realizado em Windsor Castle, no St George’s Hall, e não foi apenas uma gentileza, foi na verdade um verdadeiro manifesto simbólico de alianças e prestígios diplomáticos no cenário da geopolítica.
Vou me deter somente em partilhar detalhes do verdadeiro “discurso dos rótulos” escolhidos para tal ocasião. Já havia partilhado um artigo no ano passado sobre a abstinência do consumo de álcool por Trump ( clique aqui e conheça detalhes ) , mas ele foi uma exceção na Waterloo Table com aproximadamente 160 convidados. A linhagem de vinhos selecionados seguiu os preceitos do protocolo com todos os códigos de poder que o vinho carrega. Cada escolha estava carregada de simbolismo cultural e sobretudo envoltos na geopolítica, unindo a Inglaterra com a América através da linguagem de celebração e prestígio. Veja a lista abaixo e o que cada rótulo representava.
* Espumante: Wiston Estate Cuvée 2016
Representava a ascensão da produção vinícola britânica e sua confiança em competir com os tradicionais Champagnes.
*Vinho Branco: Domaine Bonneau de Martray (Corton-Charlemagne Grand Cru) 2018
Um dos mais prestigiados vinhos da Borgonha, símbolo de tradição e elegância europeia.
*Vinho Tinto: Ridge Vineyards Monte Bello 2000
Um verdadeiro clássico californiano que criou uma ponte simbólica com o prestígio conquistado pelos americanos no Napa Valley, remetendo a importância do terroir na mesa.
*Champagne: Pol Roger Extra Cuvée Réserve 1998
Um Champagne associado a figura lendária de Winston Churchill, reforçando a importância de uma “special relationship” transatlântica entre o Reino Unido e os EUA.
5.Palavras Finais
O vinho sempre esteve presente onde o poder se senta. Desde os banquetes da Antiguidade às mesas corporativas da era contemporânea, este néctar milenar nunca foi apenas uma bebida. Ele foi instrumento de aproximação, marcador de hierarquia, veículo diplomático e catalisador de decisões estratégicas.
O que muitos não percebem é que poucas ferramentas atravessaram a história com tamanha consistência simbólica e com verdadeira eficiência quanto o vinho. Determinadas garrafas de vinhos extraordinários possuem um “hieróglifo” próprio, que comunica sem absolutamente nenhuma palavra, um código social de uma classe muito restrita no mundo, transmitindo com a sua imagem o “pertencimento, dinheiro, tempo, linhagem” e sobretudo muito PODER !
Espero que este texto possa ter esclarecido à você leitor, este simbolismo do vinho, que na verdade é compreendido de forma clara por poucos e que a partir de já, ao ler este texto, não poderás mais deixar de observá-lo por este aspecto também.
Desejo boas provas com bons vinhos e muita saúde!
Saudações Báquicas!
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