O objetivo deste artigo é relatar os detalhes interessantes de como vinhos americanos da Califórnia superaram os grandes vinhos franceses de Bordeaux e da Borgonha, quebrando paradigmas da indústria até então, e redefinindo a partir dali a capacidade e a percepção global da produção de vinhos com qualidade superior.

Contexto Histórico do Julgamento de Paris
Em 26 de maio de 1976 no Le Grand Hotel, atualmente denominado Hôtel InterContinental na cidade de Paris (França) ocorreu o histórico e icônico evento do setor do vinho mundial, a Degustação de Vinhos de Paris. Este local foi escolhido devido a sua privilegiada localização próximo ao Palais Garnier, e a Ópera de Paris. Ele era e é considerado um dos hotéis mais elegantes e históricos da cidade.
O evento foi organizado e maestrado pelo britânico e comerciante de vinhos Steven Spurrier e pela americana Patrícia Gallagher, onde tinham de plano de fundo a ideia de comemorar os 200 anos da Independência dos Estados Unidos (1776).
Na ocasião foram colocados em julgamento às cegas grandes e renomados vinhos franceses de Bordeaux e da Borgonha juntamente com os subestimados vinhos californianos, até então desconhecidos no mercado.



Principais Personagens Envolvidos
O evento contou com a presença de onze jurados ( 9 jurados franceses especializados, 2 jurados que foram excluídas as notas e não contabilizadas, as de Steven Spurrier e da Patrícia Gallagher, pois eram os organizadores) e um único jornalista e repórter que compareceu, o americano George M. Taber, da revista Time. Este em 2005 publicou o livro “Judgment of Paris: California vs. France and the Historic 1976 Paris Tasting that Revolutionized Wine“.

Steven Spurrier
5 de outubro de 1941 – 9 de março de 2021
Foi um renomado especialista britânico em vinhos, empresário, educador, escritor, consultor e até chegou a produzir espumantes no sul da Inglaterra. Ficou amplamente conhecido por ter organizado o Julgamento de Paris em 1976. Fundou a primeira escola de vinho privada da França, L’Académie du Vin.
Crédito de imagem: Justine Trickett
Patrícia Gallagher
Uma americana associada à imagem acadêmica, era a Diretora da escola de Steven Spurrier, L’Académie du Vin.
Imagem atribuída a Patrícia Gallagher, Steven Spurrier e Odette Kahn
Crédito de imagem: Livro Judment of Paris: Califirnia vs. France

O júri dos nove franceses que foram convidados e que representaram de fato as notas validadas eram jurados altamente especializados, respeitados e com renome, conforme você leitor pode conferir a seguir.
1. Albert de Villaine – Coproprietário do Domaine Romanée-Conti
2. Pierre Brejoux – Inspetor da Appellation d’Órigine Contrôlée
3. Michel Dovaz – Intituto Enológico da França
4. Odette Kahn – Editora da Revista La Revue du Vin de France
5. Claude Dubois-Millot – Diretor da Le Nouveau Guide
6. Raymond Oliver – Proprietário do Restaurante Le Grand Véfour
7. Jean-Claude Vrinat – Proprietário do Restaurante 3 estrelas Le Taillevent
8. Christian Vanneque – Sommelier do Restaurante 3 estrelas La Tour d’Argent
9. Pierre Tari – Proprietário do Château Giscours
A Escolha das Vinícolas e Vinhos Participantes
Spurrier selecionou 12 vinhos californianos para participar da grande prova, seis brancos da casta Chardonnay e seis tintos da cepa Cabernet Sauvignon. Interessante que os vinhos foram produzidos por vinícolas que haviam iniciado ou reabertas entre as décadas de 60 e início de 1970, portanto consideradas jovens para o mercado de alto padrão com exigências de histórico e constância qualitativa. Dentre os doze vinhos, nove foram do Napa Valley e três das Montanhas de Santa Cruz. Uvas que compuseram alguns lotes foram cultivadas em Sonoma. Totalizando onze vinícolas californianas. A Freemark Abbey foi a única vinícola que participou da prova com branco e tinto.
Já nos vinhos franceses, o organizador do evento selecionou vinhos de altíssima qualidade, que inclusive tinha a expectativa de superar facilmente os vinhos americanos no seu evento, como relatou o George M. Taber em seu livro, onde relata também que o objetivo de Steven Spurrier era obter alguma publicidade para a sua loja de vinhos Caves de la Madeleine e para sua escola Académie du Vin, e também fazer os franceses perceberem que os vinhos da Califórnia estavam se desenvolvendo, de forma alguma tinha a intenção de gerar algum tipo de desconforto.
Dentre a seleção dos vinhos franceses ele propôs quatro vinhos tintos de Bordeaux para serem degustados com seis Cabernet Sauvignon da Califórnia e quatro brancos da Borgonhas para serem degustados com seis californianos de Chardonnay. Procurou equiparar safras próximas para ficar mais justo, e os tintos tinham que ser de 2 a 3 anos mais antigos comparados aos brancos. Abaixo partilho duas imagens pedagógicas extraídas do livro “Judment of Paris …”, onde você leitor pode observar os locais onde localizam-se os respectivos produtores dos vinhos participantes.


Vinhos Participantes
No total deste evento que ficou conhecido na história como o Julgamento de Paris, foram avaliados 20 vinhos, sendo 12 tintos e 8 brancos, abaixo a lista de todos os vinhos que participaram da degustação, suas safras e terroirs.
Vinhos Tintos da Califórnia
O grande vencedor entre os tintos foi Stag’s Leap Wine Cellars 1973 ( Napa Valley, EUA);
Ridge Vineyards Monte Bello 1971 (Santa Cruz Mountains, EUA);
Heitz Wine Cellars Martha’s Vineyard 1970 (Napa Valley, EUA);
Clos Du Val Winery 1972 (Napa Valley, EUA);
Mayacamas Vineyards 1971 (Napa Valley, EUA);
Freemark Abbey Winery 1969 (Napa Valley, EUA).
Vinhos Tintos de Bordeaux
Château Mouton-Rothschild 1970 (Pauillac, Bordeaux);
Château Montrose 1970 (Saint-Estèphe, Bordeaux);
Château Haut-Brion 1970 (Pessac-Léognan, Bordeaux);
Château Léoville Las Cases 1971 (Saint-Julien, Bordeaux).
Vinhos Brancos da Califórnia
O grande vencedor entre os brancos Chateau Montelena 1973 (Napa Valley, EUA);
Chalone Vineyard 1974 (Monterey County, EUA);
Spring Mountain Vineyard 1973 (Napa Valley, EUA);
Freemark Abbey Winery 1972 (Napa Valley, EUA);
Veedercrest Vineyards 1972 (Napa Valley, EUA);
David Bruce Winery 1973 (Sonoma County, EUA).
Vinhos Brancos da Borgonha
Meursault Charmes Roulot 1973 (Meursault, Borgonha);
Beaune Clos des Mouches Joseph Drouhin 1973 (Beaune, Borgonha);
Batard-Montrachet Ramonet-Prudhon 1973 (Chassagne-Montrachet, Borgonha);
Puligny-Montrachet Les Pucelles Domaine Leflaive 1972 (Puligny-Montrachet, Borgonha).
Percepção da Imagem dos Vinhos Antes e Depois do Evento
Importante lembrar que em 1976 os vinhos qualitativos e renomados eram pertencentes a hegemonia francesa, com uma certa aura inclusive de superioridade inquestionável, com reputação conquistada com louvor, após séculos de constância na produção de grandes vinhos e um belíssimo branding realizado no mercado. Já os vinhos americanos e de outras regiões produtoras tidas como “novas” eram considerados inferiores, ainda num papel experimental, sem prestígio para competir a nível global.
Após o resultado do evento, o júri ficou perplexo já que este era composto de 100% de franceses. Surpreendeu até aos organizadores que na época ainda só vendiam vinhos franceses em sua loja. A hegemonia qualitativa foi derrubada, causando uma série de desconforto aos franceses, consequências históricas e os holofotes voltaram-se aos vinhos californianos do “Novo Mundo”. A percepção alterou de forma drástica, a imagem dos californianos ganharam imediatamente legitimidade, e provaram que estavam prontos para rivalizar ou até superar os franceses em qualidade. O status da Califórnia sobretudo para Napa Valley passou à região vinícola nobre, o que gerou incentivo de investimentos e de inovação.
A imprensa francesas que havia sido chamada, mas ignorou o convite. Marcou presença somente o jornalista e repórter americano da Revista Time George M. Taber, o único que podia legitimamente escrever em detalhes o que aconteceu ali, além dos envolvidos e citados acima. Passados quase três meses o Le Figaro publicou um artigo descrevendo os resultados como “cômico” e que não podiam ser levados a sério. Seis meses depois o Le Monde escreveu um artigo seguindo a mesma linha do Le Figaro. O Steven Spurrier recebeu uma punição onde foi banido pelos líderes da indústria vitivinícola francesa da prestigiada turnê de degustação de vinhos do país pelo período de um ano.
Algo que vale a pena partilhar também é que após 30 anos do ocorrido , em 24 de maio de 2006 jurados europeus e americanos, de forma simultânea em Napa Valley e em Londres tornaram a repetir exatamente o mesmo painel de prova às cegas. O resultado foi a vitória ainda maior da Califórnia, pois cinco dos vinhos mais pontuados eram os de Napa, sendo o vencedor Ridge Monte Bello que na época havia ficado em quinto lugar, evidenciando a capacidade fantástica de evolução deste néctar.
Velho Mundo x Novo Mundo
Os termos Velho Mundo e Novo Mundo não foram usados e aplicados exclusivamente pela indústria do vinho. Na verdade iniciou-se o uso pelos europeus com o advento das grandes navegações a partir do século XV, onde exploravam novas terras e conquistas. Os europeus chamavam as Américas e outros países conquistados de Novo Mundo em contrapondo aos países antigos europeus, do norte da Africa e Oriente Médio, tidos como Velho Mundo.
Dentro do universo do vinho agregou-se mais detalhes além exclusivamente de serem de novas e antigas áreas de produção, mas também ele foi e ainda é aplicado para descrever diferenças filosóficas na viticultura, na vinificação, nos estilos de produção e até de branding de imagem e comunicação dos vinhos.
Devido o advento da globalização e da aplicação das mesmas técnicas vitivinícola em todo o lado do mundo, estes termos tem caído em desluzo, mas para os iniciantes dentro deste universo do vinho, talvez ainda seja um norte de entender algumas diferenças e da própria história.
Palavras Finais
Deixo aqui este relato histórico icônico do setor vitivinícola mundial, o Julgamento de Paris. Aproveito para partilhar um aprendizado pessoal que tive ao longo destes anos que estou envolta no setor vitivinícola , onde nunca devemos subestimar um terroir, um produtor ou um vinho. Há vinhos extraordinários sendo produzidos para todo lado do mundo e que em prova cega nos surpreende por nem imaginarmos que em determinado lugar já está sendo produzindo vinhos qualitativos.
Mas ao mesmo tempo que partilho este caso ocorrido em 1976, há 50 anos atrás, penso que vale fazer uma ressalva importante, os vinhos qualitativos avaliados às cegas são analisados exclusivamente pelo líquido, e são de modo geral completamente diferentes sobretudo em valor dos vinhos qualitativos vendidos com uma construção de branding histórico, onde a credibilidade, a confiança, a escassez, o pack, e o posicionamento de imagem é o que verdadeiramente determinam o preço.
É necessário entender o que acontece com qualquer bem de luxo que vai muito além da simples utilização do mesmo, mas o que ele comunica, o que ele agrega e o que ele representa em VALOR a quem paga por ele.
Desejo excelentes provas em boa companhia e muita saúde!
Saudações Báquicas!


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