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A Eslovênia raramente é o primeiro país que vem à mente quando se fala nas grandes regiões vinícolas da Europa. Por anos, sua reputação internacional foi moldada por vinhos naturais, uvas autóctones e métodos experimentais de vinificação — estilos que conquistaram reconhecimento em nichos, mas pouco contribuíram para o reconhecimento em larga escala. Agora, à medida que consumidores passam a olhar além de países tradicionais como França e Itália, produtores eslovenos começam a buscar um espaço no cenário dos vinhos de prestígio. Um dos sinais mais claros dessa mudança é o “Ana”, um Chardonnay que indica que o país pode competir em alto nível.
O vinho é produzido por Peter Gönc, enólogo de quarta geração cuja criatividade tem contribuído para o crescimento da presença da Eslovênia em mercados internacionais. Conhecido por vinhos modernos e marcantes que primeiro conquistaram público nos Estados Unidos, Gönc ficou famoso por rótulos ousados e estilos pouco convencionais. Seu projeto mais recente, no entanto, o Ana, adiciona uma expressão clássica a um portfólio conhecido pela originalidade. O vinho é, ao mesmo tempo, um reflexo pessoal e uma declaração de que os vinhedos eslovenos são capazes de produzir rótulos à altura das regiões mais consolidadas do mundo.
A inspiração surgiu fora do país. Durante uma viagem a Tel Aviv, Gönc recebeu um vinho israelense no lugar do rótulo internacional que esperava provar. A experiência mudou sua perspectiva. Se Israel conseguia produzir um vinho desse nível, a Eslovênia — com sua história vitivinícola centenária — também poderia fazê-lo. O resultado foram dois anos de pesquisa, seleção criteriosa de barris e um trabalho paciente de adega. O vinho final recebeu o nome Ana, em homenagem às mulheres de sua família, e representa o projeto mais ambicioso de sua carreira.
O vinho ANA, o novo Chardonnay da Eslovênia, está chamando a atenção e mudando mentalidades
Para Gönc, o projeto começou como um reflexo de sua própria trajetória. Ele afirmou que “a recepção superou as expectativas, tendo começado como algo profundamente pessoal — mais uma reflexão de sua vida e caminho do que um empreendimento planejado. Ver pessoas se conectarem com o Ana não apenas de forma técnica, mas também relacionando suas próprias histórias à do vinho foi algo significativo”. Ao mesmo tempo, o Chardonnay despertou debates mais amplos sobre o potencial de Štajerska, região vinícola no nordeste da Eslovênia.
Críticos e importadores que degustaram o Ana afirmam que ele pode competir com os grandes nomes do mundo. JP Bourgeois, que representa os vinhos de Gönc nos Estados Unidos desde 2018, afirma que o Chardonnay é quase indistinguível de alguns dos vilarejos mais respeitados da Borgonha.
“Em uma degustação às cegas, a maioria provavelmente o colocaria na Côte de Beaune, especificamente em Meursault, devido à sua estrutura e elegância”, diz Bourgeois. A comparação não é feita de forma leviana, especialmente no mercado norte-americano, onde a Borgonha ocupa posição dominante e o Chardonnay é uma das categorias mais competitivas. Para ele, é exatamente por isso que o Ana tem importância. Para que a Eslovênia participe dessa conversa, é necessário um vinho capaz de se equiparar à elite já estabelecida — e o Ana cumpre esse papel.
Ele também reconhece o desafio de visibilidade. O mercado americano está repleto de Chardonnays, tanto domésticos quanto importados, e a maioria dos compradores tem pouco ou nenhum conhecimento da Eslovênia como produtora relevante da uva. Por isso, o Ana não se venderá sozinho.
O plano é colocá-lo em restaurantes de alto padrão com menus degustação, além de lojas especializadas onde sommeliers e proprietários possam contar sua história diretamente aos clientes. Com preço sugerido de cerca de US$ 60 (R$ 320), o Ana se posiciona para competir com os rótulos de entrada da Borgonha, diferenciando-se pela raridade e narrativa.
A escassez é parte essencial de sua identidade. Com apenas 2.000 garrafas produzidas, o Ana chega ao mercado como um item de coleção, não de consumo em massa. Segundo Gönc, “o vinho permanecerá um projeto pequeno e intencional, no qual o Chardonnay estabelece um padrão de precisão e paciência. O Ana está crescendo como uma coleção que pretende mostrar a profundidade, a amplitude e o significado da região”.
Kevin O’Sullivan, diretor de vendas da Prime Wine & Spirits, na Geórgia (EUA), também vê o Ana como um ponto de virada não apenas para Gönc, mas para o vinho esloveno em geral. Com quase duas décadas de experiência no setor, ele observou a mudança nas preferências dos consumidores — antes focadas em listas dominadas por Cabernet — para uma postura mais aberta à descoberta.
“O Ana é um vinho de nível internacional, com refinamento capaz de agradar tanto sommeliers quanto consumidores após a degustação. Embora os vinhos naturais e as uvas autóctones tenham seu público, eles também limitam a identidade da Eslovênia no mercado global”, explica O’Sullivan.
Ele reforça sua confiança no potencial do vinho, afirmando já ter solicitado quase um quarto da cota destinada aos Estados Unidos, tamanho é o entusiasmo pelo projeto. Ele prevê que o rótulo figure nas cartas de restaurantes com preços entre US$ 100 e US$ 125 (R$ 536 a R$ 670), posicionando-o em um nicho competitivo, porém promissor.
De forma mais ampla, o projeto representa um ponto de inflexão para o vinho esloveno. Desde a independência do país, em 1991, os produtores desfrutam de liberdade criativa que incentivou a experimentação, mas que pouco contribuiu para consolidar a imagem da Eslovênia como origem de vinhos clássicos e refinados. Agora, com enólogos como Gönc aplicando rigor técnico e artesanal para criar rótulos de prestígio, o país tem a oportunidade de ampliar sua influência.
De acordo com Gönc, “não há necessidade de escolher entre tradição e inovação. Se o Ana consegue se destacar no cenário internacional e, ao mesmo tempo, expressar claramente sua origem, então cumpre seu propósito. O vinho demonstra que a Eslovênia pode produzir rótulos que pertencem a discussões globais — não por imitarem outros, mas por representarem de forma autêntica o território de onde vêm”.
Para Gönc, o Ana é apenas o início. Recentemente, ele lançou o Blanc, um corte de Chardonnay e Pinot Blanc, e planeja apresentar em breve um rosé e um Pinot Noir. Esses projetos reforçam a ambição da Eslovênia de integrar o cenário dos vinhos de alta gama.
Ainda não se sabe se o Ana se tornará conhecido como o melhor vinho da Eslovênia. Para Gönc, representa a culminação de anos de reflexão e busca por permanência. Para o país, pode ser o rótulo que finalmente transforme sua imagem — de curiosidade de nicho a competidor de classe mundial.
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